F2 · Aulas 69–70

A Rússia pós-soviética e a Guerra da Ucrânia

1. A Rússia de Iéltsin (1991-1999)

Após o colapso da URSS, Boris Iéltsin conduz uma transição caótica ao capitalismo — a "terapia de choque" —, com hiperinflação, colapso do padrão de vida e privatizações que criaram uma nova classe de oligarcas bilionários a partir da apropriação de ativos estatais. O período é marcado por instabilidade política e perda de prestígio internacional da Rússia.

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Aprofundando: Iéltsin chega ao poder em 1991 como o presidente que enterrou o Sovietismo, mas o custo foi uma década de desmonte econômico sob a orientação de economistas ocidentais, o chamado Consenso de Washington. O caso mais emblemático é o programa de vouchers de privatização: cada cidadão recebeu um papel que representava uma fração das estatais, mas, sem informação ou capital, a maioria vendeu os vouchers por migalhas a intermediários, que os concentraram e se tornaram donos de setores estratégicos. Exemplo concreto: em 1995, o esquema "empréstimos por ações" entregou gigantes como Yukos (petróleo) e Norilsk Nickel (níquel) a banqueiros próximos do Kremlin por valores irrisórios — Mikhail Khodorkovsky, o mais famoso desses oligarcas, comprou a Yukos por cerca de US$ 300 milhões quando valia bilhões.

Some-se a isso a crise de 1998, quando a Rússia deu calote na dívida interna e o rublo desabou, e o bombardeio do Parlamento em 1993, quando Iéltsin mandou tanques contra o Soviete Supremo. O saldo foi uma democracia formal com poder real nas mãos de clãs econômicos, imprensa manipulada e uma população empobrecida — terreno fértil para a ascensão de Putin em 2000.

2. A ascensão de Vladimir Putin

No poder desde 2000 (como presidente ou primeiro-ministro), Putin recentraliza o poder do Estado, disciplina os oligarcas mais autônomos e reconstrói a capacidade militar e a influência internacional russa, com discurso de restauração do prestígio geopolítico perdido após 1991 — inclusive lamentando publicamente o fim da URSS como "a maior catástrofe geopolítica do século XX".

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A ascensão de Putin se entende melhor como resposta à década de 1990, quando a transição liberal de Iéltsin gerou crise econômica, hiperinflação e humilhação internacional, enquanto as privatizações entregavam estatais estratégicas a preços irrisórios a um pequeno grupo de oligarcas — os "semiboyardos" que chegaram a controlar bancos, petroleiras e canais de TV. Exemplo concreto é o caso Mikhail Khodorkovsky, dono da petrolífera Iukos, que financiou partidos de oposição: preso em 2003 sob acusação de fraude e sonegação, teve a empresa leiloada e absorvida pela estatal Rosneft, sinal claro de que a riqueza privada só seria tolerada se subordinada ao Kremlin.

Nomeado primeiro-ministro em 1999 por Iéltsin e eleito presidente em 2000, Putin articulou três eixos: a verticalização do poder (enfraquecimento do Parlamento, controle dos governadores e dos meios de comunicação), a estatização seletiva de setores estratégicos como energia e defesa, e o uso do petróleo caro dos anos 2000 para financiar rearmamento e política externa assertiva — vide a Guerra da Geórgia (2008), a anexação da Crimeia (2014) e a invasão da Ucrânia (2022).

3. Geórgia e a anexação da Crimeia

A Rússia intervém na Geórgia em 2008 (Ossétia do Sul e Abkházia) e, em 2014, após a queda do presidente pró-Rússia da Ucrânia na Revolução da Praça Maidan, anexa a Crimeia por referendo não reconhecido internacionalmente e apoia separatistas nas regiões de Donetsk e Lugansk (Donbass), no leste ucraniano — o antecedente direto do conflito maior de 2022.

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Essas ações inserem-se na chamada doutrina Primakov — formulada pelo então primeiro-ministro Yevgeny Primakov ainda nos anos 1990 e retomada por Putin —, que defende um mundo multipolar, o retorno da Rússia ao status de grande potência e a preservação de uma esfera de influência no "exterior próximo", isto é, nas antigas repúblicas soviéticas, vistas como zona de segurança estratégica contra o avanço da OTAN e da União Europeia. O argumento russo recorre ao precedente de Kosovo (1999), quando o Ocidente reconheceu a independência da província sérvia sem aval da ONU, para justificar os referendos na Crimeia e nas autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk como exercícios de autodeterminação.

4. A invasão da Ucrânia (2022)

Em fevereiro de 2022, a Rússia lança uma invasão em larga escala da Ucrânia, justificada oficialmente pela oposição à expansão da OTAN para o Leste Europeu e por alegações de "desnazificação". Gera a maior guerra convencional na Europa desde 1945, sanções ocidentais massivas à Rússia, reconfiguração da segurança europeia (adesão de Finlândia e Suécia à OTAN) e crise humanitária e de refugiados de grande escala — tema de forte atualidade para provas como ENEM e Fuvest.

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A invasão de 2022 deve ser entendida como o desfecho de um processo histórico que remonta à dissolução da URSS em 1991, quando a Rússia perdeu sua zona de influência e passou a enxergar o avanço da OTAN — aprofundado pelas adesões de Polônia, República Tcheca e Hungria (1999) e das repúblicas bálticas (2004) — como ameaça existencial à sua segurança estratégica, sendo o discurso da "desnazificação" e a defesa das minorias russófonas do Donbass, região de maioria russa no leste ucraniano, o pretexto para anexar territórios como Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson, organizando referendos em setembro de 2022 sem reconhecimento internacional. A Ucrânia, por sua vez, desde a Revolução da Dignidade (2014), aprofundou seu alinhamento pró-ocidental, com aspiração de integrar UE e OTAN, o que Moscou classifica como linha vermelha.