F1 · Aulas 1–2

A Guerra de "Reconquista", a Revolução de Avis e a unificação espanhola

1. Ocupação da península Ibérica

Sucessivas camadas: iberos e celtas, fenícios e gregos no litoral, domínio romano (que deixa língua, direito e cristianismo), visigodos no século V e, em 711, os muçulmanos. Al-Andalus foi centro de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos, e preservou o saber greco-romano.

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A ocupação da península Ibérica deve ser entendida como um processo de estratificação cultural, em que cada povo não simplesmente substituiu o anterior, mas se sobrepôs a ele, gerando uma sociedade híbrida cuja herança chega até o mundo ibérico moderno e, por extensão, à América Latina. Quando Roma inicia a conquista no final do século III a.C. (com desembarque em Emporion, atual Ampurias, em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica), o que se impõe não é apenas um exército, mas um modelo civilizatório: latim, direito romano, rede urbana, estradas, moeda e, sobretudo, o cristianismo, que se tornaria o cimento ideológico da unidade posterior.

A Pax Romana pacifica e integra a Hispânia, mas a crise do Império (século III d.C.) abre espaço para a entrada dos visigodos no século V, que se convertem ao catolicismo e tentam dar continuidade à ordem romana, mantendo o latim como língua administrativa e o direito romano como base — mas sem conseguir a coesão política necessária diante das disputas internas pela realeza eletiva. É justamente essa fragilidade política visigoda que explica a rapidez da conquista muçulmana de 711: em poucos anos, o reino visigodo de Toledo deixa de existir, e nasce Al-Andalus, onde a convivência entre mulçumanos, cristãos (moçárabes) e judeus produz um dos centros culturais mais avançados da Europa medieval, com avanços em matemática, medicina, filosofia e tradução do saber greco-romano, que retornaria à Europa cristã por Toledo.

2. Guerra de "Reconquista" Ibérica (722-1492)

Longa expansão cristã sobre o território muçulmano, de Covadonga à tomada de Granada em 1492. O termo é problemático: sugere retomada legítima e apaga oito séculos de presença islâmica. Legou a mentalidade de cruzada, a nobreza guerreira e a aliança entre trono e Igreja.

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A chamada Reconquista foi menos uma campanha contínua e mais um mosaico de avanços e recuos ao longo de quase oito séculos, iniciado com a resistência asturiana em Covadonga (722) e concluído com a queda do reino nasrida de Granada pelos Reis Católicos em 1492. O conceito historiográfico é hoje contestado porque pressupõe uma identidade espanhola preexistente e uma unidade religiosa que nunca existiram de fato: os reinos cristãos — Leão, Castela, Navarra, Aragão e Portugal — guerreavam entre si tanto quanto contra os muçulmanos, e a fronteira era zona de intensa convivência, com moçárabes, mudéjares e judeus convivendo e pagando tributos (as parias) a senhores cristãos.

3. Formação dos reinos Ibéricos

Da Reconquista nascem Castela, Aragão e Portugal — este independente em 1143, com o Tratado de Zamora. Em 1385, a Revolução de Avis eleva D. João I e consolida a aliança entre rei e burguesia mercantil, base do pioneirismo náutico. Na Espanha, o casamento de Fernando e Isabel unifica os reinos em 1469.

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A formação dos reinos ibéricos é um processo de longa duração que articula a chamada Reconquista — expedições militares cristãs contra o domínio muçulmano na Península, iniciadas ainda no século VIII — à consolidação de estruturas políticas autônomas no norte peninsular. Diferentemente do que sugere a ideia de uma "reconquista" homogênea, o avanço cristão foi fragmentado e deu origem a reinos distintos: Leão, Castela (que emerge como reino em 1035, com Fernando Magno, e não em 1065), Navarra, Aragão e o Condado Portucalense, que se torna Portugal.

O ponto central é entender que esses reinos não surgem de um projeto nacional previamente definido, mas de arranjos dinásticos, guerras e concessões feudais que, com o tempo, forjam identidades políticas.