F2 · Aulas 63–64

As independências africanas tardias e a Guerra Fria na África

1. As colônias portuguesas

Diferente das demais potências, Portugal resistiu à descolonização sob o regime salazarista, enfrentando guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau desde o início dos anos 1960. A independência só veio após a Revolução dos Cravos (1974) em Portugal, que derrubou a ditadura: Moçambique e Angola tornam-se independentes em 1975.

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O caso português ilustra como a descolonização africana foi tardia e violenta justamente por se entrelaçar à Guerra Fria: Salazar, e depois Marcelo Caetano, tratavam Angola, Moçambique e Guiné-Bissau como províncias ultramarinas, e não colônias, o que impedia qualquer negociação de independência e transformava a recusa em guerra permanente. Exemplo concreto e decisivo é a Guiné-Bissau, onde o PAIGC de Amílcar Cabral combinou guerrilha rural com a conquista de territórios libertados e obteve apoio sobretudo da China, da União Soviética e de países africanos vizinhos, proclamando a independência em 1973, reconhecida internacionalmente, embora Portugal só a aceitasse após 1974, o que mostra que o apoio externo foi relevante mas o êxito militar e político foi essencialmente interno.

Em Moçambique, a FRELIMO, fundada por Eduardo Mondlane e depois liderada por Samora Machel, enfrentou a partir de 1964 uma guerra de libertação com forte apoio da Tanzânia e de países socialistas, tornando-se independente em 1975 e adotando um projeto marxista-leninista; a RENAMO, apoiada pela Rodésia e depois pela África do Sul, mergulhou o país numa guerra civil devastadora de 1977 a 1992. Em Angola, a independência de 1975 precipitou o conflito entre MPLA, FNLA e UNITA, com intervenção cubana e soviética ao lado do MPLA e apoio sul-africano e americano aos adversários, num dos episódios mais sangrentos do proxy war africano.

2. Guerras civis e Guerra Fria em Angola

A independência de Angola foi seguida imediatamente por guerra civil entre o MPLA (marxista, apoiado por Cuba e URSS) e a UNITA (apoiada pelos EUA e pela África do Sul do apartheid) e a FNLA — um dos episódios mais claros da Guerra Fria "quente" travada por procuração no continente africano. O conflito se estendeu, com interrupções, até 2002.

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As guerras civis angolanas inserem-se no contexto mais amplo das independências africanas tardias, quando a retirada das potências europeias deixou Estados frágeis e disputados pelas duas superpotências. Em Angola, a luta anticolonial fragmentou-se em três movimentos com bases étnicas e regionais distintas: o MPLA, ligado aos mestiços de Luanda e ao hinterland de língua quimbundo; a FNLA, com raízes no norte bakongo; e a UNITA, de base ovimbundu no planalto central. Com o fim do domínio português em 1975 e o Acordo de Alvor, a disputa pelo poder em Luanda transformou-se em guerra aberta, e o conflito tornou-se um exemplo concreto do que historiadores chamam de guerra por procuração: Cuba enviou tropas e assessores para sustentar o MPLA, a URSS forneceu armas e recursos, os EUA e a África do Sul do apartheid apoiaram a UNITA e a FNLA, enquanto o Zaire de Mobutu serviu de retaguarda à FNLA.

O momento mais emblemático talvez seja a Batalha de Quifangondo, em novembro de 1975, quando forças cubanas e do MPLA impediram o avanço da FNLA e de mercenários sobre Luanda, garantindo a proclamação da independência sob o governo do MPLA. A dimensão internacional também se manifestou na intervenção sul-africana em 1975-1976 e na prolongada presença cubana até 1991, que só terminou com o fim da Guerra Fria e o Acordo de Nova York.

3. Apartheid e a atuação internacional

O regime de segregação racial na África do Sul (1948-1994) sofreu sanções econômicas internacionais crescentes a partir dos anos 1980 e isolamento diplomático, mas contou com tolerância ocidental por anos, dado o alinhamento anticomunista do regime. A libertação de Nelson Mandela (1990) e as eleições multirraciais de 1994 marcam o fim formal do apartheid — mas desigualdades socioeconômicas herdadas persistem até hoje, tema recorrente em Geografia e atualidades.

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O apartheid deve ser entendido como um sistema jurídico-institucional de racialização total da vida social, e não apenas como preconceito difuso: a partir de 1948, o National Party estruturou leis como o Group Areas Act (1950), que separava bairros por raça, e o Bantu Education Act (1953), que criava uma educação inferior para negros, aprofundando o controle da mão de obra e da mobilidade. A dimensão internacional do tema se explica pela Guerra Fria: como o regime se apresentava como bastião anticomunista no sul da África, potências ocidentais, sobretudo EUA e Reino Unido, toleraram o apartheid por décadas e mantiveram comércio e investimentos, enquanto a ONU aprovava resoluções condenatórias sem efeito prático.