F1 · Aulas 15–16

Da Restauração à descoberta do ouro no Brasil

1. Restauração portuguesa

Em 1640, D. João IV, da dinastia de Bragança, restaura a independência de Portugal. O reino sai enfraquecido e passa à órbita inglesa, consolidada no Tratado de Methuen (1703) — que troca vinho por tecidos e drena para a Inglaterra o ouro brasileiro que estava por vir.

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A Restauração de 1640 precisa ser entendida como um processo, não um episódio isolado: após a União Ibérica (1580–1640), Portugal viu seu império ser atacado pelos inimigos da Espanha — holandeses tomaram Salvador (1624) e Pernambuco (1630) —, e a nobreza lusitana, temendo perder o controle colonial, aclamou D. João IV. O novo rei, porém, enfrentou a Guerra de Restauração contra a Espanha (até 1668) e precisou de apoio externo, o que explica a aproximação com a Inglaterra: o casamento de Catarina de Bragança com Carlos II (1662) rendeu tropas e dinheiro em troca de vantagens comerciais, aprofundadas pelo tratado de 1703. Exemplo concreto desse arranjo é o próprio ouro de Minas Gerais, descoberto nos anos 1690: boa parte dele não ficou em Portugal, mas seguiu para Londres, pagando os tecidos ingleses que abasteciam a colônia, o que já no século XVIII levou o Marquês de Pombal a tentar reverter a dependência.

Em resumo, guarde a sequência: Restauração → aliança inglesa → ouro brasileiro financiando a Revolução Industrial inglesa.

2. Expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil

Após a saída de Nassau, a cobrança das dívidas e o endurecimento fiscal desencadearam a reação luso-brasileira. As vitórias nas batalhas dos Montes Guararapes (1648 e 1649) foram decisivas; os holandeses capitularam em 1654. Portugal ainda pagou indenização em 1661.

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A Expulsão dos Holandeses do Nordeste insere-se no contexto mais amplo da União Ibérica (1580-1640): como Portugal e Espanha passaram a ter o mesmo rei, os Países Baixos — então em guerra de independência contra a Espanha — atacaram as possessões portuguesas, ocupando Salvador (1624-1625) e, de forma duradoura, Pernambuco a partir de 1630, com o governo de Maurício de Nassau (1637-1644) marcado por tolerância religiosa, incentivo ao açúcar e obras urbanas no Recife.

O ponto central é que, com a Restauração Portuguesa de 1640, a guerra entre Holanda e Espanha deixou de justificar automaticamente a ocupação do Brasil, e a Companhia das Índias Ocidentais, endividada, passou a cobrar os senhores de engenho luso-brasileiros, muitos deles endividados pela crise do açúcar, o que gerou a Insurreição Pernambucana.

3. Insurreição Pernambucana ou Guerra da Liberdade Divina (1645-1654)

Movimento luso-brasileiro contra o domínio holandês, com participação de senhores de engenho, indígenas (Felipe Camarão) e negros libertos (Henrique Dias) — o que alimentou a narrativa de uma “união das três raças”. É considerada um marco da identidade brasileira.

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A Insurreição Pernambucana insere-se no contexto da ocupação holandesa do Nordeste açucareiro (1630-1654), empreendida pela Companhia das Índias Ocidentais (WIC) após a trégua da Guerra dos Trinta Anos. Sob o governo de Maurício de Nassau (1637-1644), houve tolerância religiosa e incentivo à produção açucareira, mas a cobrança de dívidas dos senhores de engenho e a retomada da perseguição a católicos e judeus, após a saída de Nassau, acirraram o conflito. A guerra eclodiu em 1645 com a Batalha do Monte das Tabocas, quando luso-brasileiros derrotaram os holandeses; seguiram-se os montes Guararapes (1648 e 1649), que selaram a vitória dos insurgentes.

O conflito só terminou com a capitulação holandesa em 1654, consolidando a expulsão dos neerlandeses do Brasil.

4. Crise do açúcar

Expulsos, os holandeses transferem a produção às Antilhas, com técnica melhor e custos menores. O açúcar brasileiro perde mercado e preço a partir de 1650. A crise empurra a colônia à busca de novas riquezas e prepara o deslocamento do eixo econômico para as minas.

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A crise do açúcar foi menos um colapso súbito e mais um lento estrangulamento da economia colonial, resultado da perda do monopólio que o Brasil detinha no mercado europeu desde o século XVI. Quando os holandeses se instalaram na região de Pernambuco (1630-1654), eles não apenas controlaram os engenhos: aprenderam na prática todo o funcionamento do negócio, do plantio da cana à distribuição do açúcar refinado em Amsterdã. Expulsos em 1654, levaram esse know-how para as Antilhas — Curaçao, Jamaica, Barbados e, sobretudo, o Suriname —, onde implantaram um modelo mais eficiente: solo virgem, financiamento bancário holandês, mão de obra escrava comprada a crédito e refino feito na própria Europa, o que barateava o produto final.

O resultado foi uma queda brutal nos preços internacionais: entre 1650 e 1680, o açúcar brasileiro perdeu cerca de metade do valor de mercado, e os senhores de engenho de Pernambuco e da Bahia entraram em endividamento crônico com comerciantes portugueses e ingleses.

5. Primeiras revoltas nativistas

Movimentos localizados, sem projeto de independência: Aclamação de Amador Bueno (1641), Revolta de Beckman (1684, no Maranhão, contra a Companhia de Comércio e os jesuítas) e Guerra dos Emboabas (1708-1709), entre paulistas e forasteiros pelas minas.

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As revoltas nativistas foram explosões de descontentamento típicas do Brasil colonial entre os séculos XVII e XVIII, marcadas por reivindicações pontuais contra abusos administrativos, monopólios comerciais, altos preços, recrutamento forçado e privilégios de grupos rivais, sem questionar a legitimidade da Coroa portuguesa ou propor a separação do reino. O que as define é justamente a ausência de um projeto nacional de independência: os revoltosos queriam corrigir injustiças locais, negociar melhores condições dentro do próprio sistema colonial ou apenas expulsar um adversário específico.

6. Expansão colonial

A pecuária ocupa o sertão nordestino como atividade subsidiária ao açúcar; as drogas do sertão movimentam a Amazônia com trabalho indígena e apoio jesuíta. O Tratado de Madri (1750), pelo princípio do uti possidetis, reconhece a ocupação de fato e sepulta Tordesilhas.

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A expansão colonial para além do litoral açucareiro foi decisiva para o que hoje é o território brasileiro, e as bandeiras paulistas são o exemplo concreto mais explorado: partindo de São Paulo em busca de indígenas para escravizar e, depois, de metais preciosos, esses grupos mestiços de portugueses, mamelucos e indígenas atravessaram os sertões, fundaram arraiais e anteciparam a ocupação que faria o Brasil ultrapassar em muito a linha de Tordesilhas — as entradas oficiais e as missões jesuíticas, por sua vez, cumpriam papel complementar, catequizando e fixando aldeamentos que também serviam de base para a Coroa. Esse avanço, somado à pecuária no Nordeste e às drogas do sertão na Amazônia, criou uma ocupação extensiva, baseada em posse de fato e não em tratados, o que explica por que a diplomacia lusitana passou a defender o uti possidetis: a ocupação efetiva valendo como título jurídico.

O Tratado de Madri, de 1750, é a coroação desse processo, negociado por Alexandre de Gusmão e baseado no mapa das duas colônias, e sepulta Tordesilhas ao reconhecer como portuguesas terras já efetivamente ocupadas, incluindo a bacia do Prata e a região amazônica, mesmo que na prática os limites só se firmassem com o Tratado de Santo Ildefonso, em 1777.

7. Atividade bandeirante

Partindo de São Vicente, as bandeiras buscaram apresamento de indígenas, prospecção de metais e destruição de quilombos (Domingos Jorge Velho em Palmares). Ampliaram enormemente o território a oeste e localizaram o ouro em Minas Gerais no fim do século XVII.

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As bandeiras foram expedições que combinaram iniciativa privada e, muitas vezes, financiamento régio ou de particulares endinheirados, organizando-se em diferentes tipos conforme o objetivo predominante: as de apresamento, voltadas à captura de indígenas para escravização, as de contrato, voltadas ao combate a grupos resistentes em troca de recompensa, e as de prospecção, dedicadas à busca de metais e pedras preciosas. O bandeirismo paulista foi a principal expressão desse fenômeno, pois a vila de São Vicente e depois São Paulo de Piratininga viviam em relativa pobreza econômica, o que empurrava seus moradores para o interior em busca de riqueza e mão de obra.

Além da captura de indígenas, os bandeirantes também atuavam na destruição de quilombos, como no caso do Quilombo dos Palmares, atacado por Domingos Jorge Velho no final do século XVII, e na expulsão de missões jesuíticas do sul, como as Sete Povos das Missões, episódio que exemplifica bem a violência e o caráter de conquista do bandeirismo. O exemplo concreto mais cobrado é justamente a bandeira de Fernão Dias Pais, conhecido como o “Caçador de Esmeraldas”, que percorreu o interior em busca de pedras preciosas sem grande sucesso, mas cujas expedições abriram caminhos que mais tarde levaram à descoberta do ouro. Assim, o tema costuma ser cobrado nas provas por meio da relação entre bandeirismo e expansão territorial, da associação entre apresamento indígena e escravidão, da comparação entre bandeiras e entradas, e da conexão entre essas expedições e o posterior ciclo do ouro em Minas Gerais, sempre exigindo que o aluno diferencie os tipos de expedição e entenda seu papel no avanço português para o interior do Brasil.