F2 · Aulas 67–68

A ascensão da China e a nova ordem multipolar

1. Das reformas de Deng Xiaoping ao "socialismo de mercado"

A partir de 1978, Deng Xiaoping combina abertura econômica — zonas econômicas especiais, atração de investimento estrangeiro, mercado — com a manutenção do monopólio político do Partido Comunista, fórmula conhecida como "socialismo com características chinesas". O resultado foi o crescimento mais acelerado e sustentado da história econômica mundial, tirando centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema.

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A chave para entender o "socialismo de mercado" está em perceber que Deng Xiaoping não promoveu uma transição ao capitalismo nos moldes ocidentais, mas um rearranjo em que o Partido Comunista manteve o controle político absoluto enquanto liberava gradualmente a economia — primeiro na agricultura, com o sistema de responsabilidade familiar que substituiu as comunas populares a partir de 1978, depois nas cidades e no comércio exterior. O exemplo mais emblemático são as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), criadas a partir de 1980: Shenzhen, então uma vila pesqueira de pouco mais de 30 mil habitantes, tornou-se em quatro décadas uma metrópole de mais de 17 milhões, recebendo capital de Hong Kong, Taiwan e do Ocidente, funcionando como laboratório controlado onde o mercado operava sob supervisão estatal — se o experimento falhasse, seria contido; se funcionasse, seria replicado.

Esse pragmatismo se resume na máxima atribuída a Deng: "não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato". É fundamental contrastar com a URSS: Gorbatchov tentou primeiro a glasnost (transparência política) e a perestroika (reestruturação econômica) simultaneamente, e o resultado foi a implosão do Estado soviético em 1991; Deng fez o inverso — liberalizou a economia sem tocar no monopólio do partido. Outro elemento concreto foi a mão de obra dos mingong, trabalhadores rurais migrantes que, sem direito de residência urbana plena (o sistema de hukou), forneceram mão de obra barata e disciplinada para as fábricas exportadoras, sustentando a competitividade chinesa no mercado global.

2. A China de Xi Jinping

No poder desde 2012, Xi Jinping concentra poder pessoal em nível não visto desde Mao (fim do limite de mandatos em 2018), reforça o controle do partido sobre a economia e a sociedade (vigilância digital, repressão em Xinjiang contra a minoria uigur, controle sobre Hong Kong após 2020) e projeta poder externo pela Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), financiando infraestrutura em dezenas de países, inclusive na África e na América Latina.

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A China de Xi Jinping representa a consolidação de um modelo que combina capitalismo de Estado, nacionalismo e centralismo político, distinto tanto do maoísmo clássico quanto do reformismo de Deng Xiaoping. Desde 2012, Xi articula o "Sonho Chinês" — a meta de tornar a China potência socialista moderna até 2049, centenário da Revolução —, sustentado por três pilares: o Partido Comunista como núcleo de tudo, a inovação tecnológica como motor do desenvolvimento (Made in China 2025, foco em semicondutores, IA e veículos elétricos) e a projeção geopolítica via Belt and Road, que já financia mais de 150 países com empréstimos e obras, criando dependência econômica e influência estratégica.

3. Rivalidade EUA-China

Disputa por hegemonia tecnológica (semicondutores, 5G, inteligência artificial), comercial (tarifas mútuas desde a guerra comercial iniciada em 2018) e geopolítica (Taiwan, Mar do Sul da China). O tema é central para entender a multipolaridade do sistema internacional contemporâneo, com o enfraquecimento relativo da hegemonia unipolar americana do pós-Guerra Fria e o fortalecimento de blocos como o BRICS, do qual o Brasil é membro fundador.

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A rivalidade entre Estados Unidos e China não é uma simples disputa comercial, mas a expressão mais visível de uma transição de ordem mundial: desde o fim da Guerra Fria, os EUA exerceram uma hegemonia unipolar sustentada por poder militar, controle do dólar e liderança tecnológica, mas a ascensão chinesa — impulsionada pela abertura econômica de Deng Xiaoping em 1978, pela entrada na OMC em 2001 e por décadas de crescimento acelerado — passou a contestar essa estrutura em múltiplas frentes, configurando o que muitos analistas chamam de Guerra Fria 2.0 ou, mais precisamente, uma competição sistêmica assimétrica.

O ponto central é que a interdependência econômica entre as duas potências nunca foi tão profunda nem tão tensa: a China é o maior parceiro comercial dos EUA e, ao mesmo tempo, seu principal rival estratégico, o que torna a rivalidade diferente daquela travada contra a URSS, quando os blocos eram praticamente separados.