1. Os povos germânicos
Chamados “bárbaros” pelos romanos, ocupavam a Europa Central: francos, visigodos, ostrogodos, vândalos, anglo-saxões, lombardos. Organizavam-se em tribos, com economia agropastoril, direito consuetudinário e comitatus — o laço de fidelidade pessoal entre chefe e guerreiros, embrião da vassalagem.
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Os romanos chamavam de “bárbaros” todos os que não partilhavam sua cultura greco-latina, mas esses povos tinham identidades próprias: os germanos formavam um conjunto de etnias ligadas por línguas e tradições comuns, sem jamais constituir um Estado unificado. Viviam em aldeias e pequenas tribos chefiadas por reis eleitos em assembleias de guerreiros, e sua economia combinava pastoreio, agricultura itinerante e pilhagem sazonal. A partir do século IV, a pressão dos hunos empurrou esses grupos para dentro das fronteiras romanas, gerando migrações em cadeia: os visigodos, por exemplo, atravessaram o Danúbio em 376 como federados, revoltaram-se, derrotaram Valente em Adrianópolis e, depois de saquear Roma em 410 sob Alarico, fundaram um reino na Gália e na Hispânia, com capital em Toledo.
Esses reinos germânicos, também chamados de romano-germânicos, combinaram instituições próprias com estruturas romanas herdadas — direito, latifúndios, taxação — e foram a matriz política da Europa medieval. O caso mais importante é o dos francos, que sob Clóvis, da dinastia merovíngia, unificaram a Gália após 481, converteram-se ao cristianismo e criaram laços estreitos com a Igreja, fusão que se consolidou com Carlos Magno e o Império Carolíngio.
Características gerais dos reinos germânicos
Da fusão entre elementos romanos e germânicos nasce a sociedade medieval: ruralização, economia de subsistência, direito consuetudinário sobre o direito escrito, fidelidade pessoal no lugar da cidadania e conversão ao cristianismo — decisiva no caso dos francos.
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Os reinos germânicos que se formaram sobre o território do Império Romano do Ocidente a partir do século V — vândalos na África, visigodos na Hispânia, ostrogodos na Itália, anglo-saxões na Britânia, burgúndios no vale do Ródano, francos na Gália — não foram simples destruidores da romanidade, mas herdeiros desiguais dela, e é justamente essa diversidade de arranjos que a prova costuma cobrar. Em comum, todos partiram de um modelo de poder baseado na comitiva guerreira (o comitatus germânico): o rei não era um soberano territorial, mas um chefe que distribuía terras e botins a um séquito de guerreiros ligados a ele por juramento de fidelidade pessoal, e não por vínculo de cidadania ou de império.
Sobre essa base, cada reino combinou de modo próprio três elementos herdados de Roma: a estrutura administrativa (funcionários, direito escrito, taxação), a Igreja cristã (que sobreviveu à queda do Império e se tornou a instituição mais organizada do Ocidente) e a propriedade senhorial da terra (latifúndios romanos trabalhados por colonos e escravos). Onde a aristocracia romana sobreviveu forte, como no reino ostrogodo de Teodorico, na Itália, manteve-se a administração romana e a convivência com o Senado; onde os germânicos eram minoria mais isolada, como entre os anglo-saxões, a romanidade foi praticamente apagada e o espaço se reorganizou em reinos tribais.
Os francos, por sua vez, oferecem o exemplo concreto mais explorado pelas provas: Clóvis, da dinastia merovíngia, converteu-se ao cristianismo niceno por volta de 496, e não ao arianismo — religião da maioria dos outros povos germânicos —, o que lhe valeu o apoio do clero e da população galo-romana, permitiu-lhe apresentar-se como protetor da Igreja e legou aos francos uma legitimidade que os demais reinos não tiveram. Essa aliança entre realeza franca e Igreja é o embrião do que, mais tarde, será o Sacro Império Romano-Germânico, e ajuda a explicar por que a fragmentação feudal seguiu um caminho específico na Gália. É importante não cair na armadilha de tratar os reinos germânicos como um bloco homogêneo, porque isso apaga justamente o que a Fuvest e a Unicamp gostam de explorar: a comparação entre eles.
Note ainda que a ruralização não foi um ato de vontade dos bárbaros, mas resultado do colapso das rotas comerciais, da insegurança e do esvaziamento das cidades — processo que já vinha desde o Baixo Império e que a instalação dos reinos apenas consolidou.