F2 · Aulas 47–48

A Revolução Russa

1. Rússia pré-Revolução

Império imenso e atrasado: autocracia czarista, servidão abolida apenas em 1861, economia agrária com industrialização recente e concentrada, financiada por capital estrangeiro. Um pequeno proletariado urbano muito explorado convivia com uma imensa massa camponesa miserável.

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A Rússia pré-revolucionária era um império de contrastes extremos, onde o poder político estava totalmente concentrado nas mãos do czar, que governava de forma autocrática — sem parlamento efetivo, sem constituição liberal e com forte repressão a qualquer oposição, inclusive sindicatos e partidos de esquerda. A sociedade permanecia rigidamente hierarquizada, com uma nobreza latifundiária privilegiada e uma imensa população camponesa que, mesmo após a abolição da servidão em 1861, continuava endividada, sem terra suficiente e sujeita a condições de vida precárias.

A. Política

Autocracia czarista sob os Romanov: o czar concentrava todo o poder, sem constituição nem parlamento efetivo. A Duma, criada após 1905, tinha poderes limitados e era dissolvida à vontade. A repressão política era feita pela polícia secreta (Okhrana), com exílio na Sibéria.

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O regime czarista era uma autocracia de direito divino: o imperador concentrava simultaneamente os poderes executivo, legislativo e judiciário, e a fusão entre Estado e Igreja Ortodoxa reforçava a legitimidade mística da autoridade, enquanto a burocracia e o exército garantiam sua sustentação prática. Essa estrutura era sustentada por uma nobreza proprietária de terras e por uma nascente burguesia industrial dependente de concessões estatais, o que explica a fragilidade dos projetos liberais no país.

Exemplo concreto: após o Domingo Sangrento de 1905, quando a Guarda Imperial massacrou manifestantes que pediam reformas diante do Palácio de Inverno, o czar Nicolau II foi forçado a assinar o Manifesto de Outubro, criando a Duma e prometendo liberdades civis — mas o Estatuto Fundamental de 1906 restabeleceu a autoridade suprema do monarca, garantiu-lhe veto absoluto sobre qualquer lei, controle total das Forças Armadas e o direito de nomear e demitir ministros sem consultar o legislativo, esvaziando na prática a representação parlamentar. Em 1907, o golpe do primeiro-ministro Stolypin alterou a lei eleitoral para favorecer os proprietários rurais, excluindo camponeses e operários da representação, e a Okhrana ampliou a vigilância sobre sovietes, sindicatos e partidos clandestinos, prendendo, exilando ou executando opositores.

A censura, a russificação forçada das minorias e as políticas de perseguição a judeus e poloneses completavam o quadro repressivo.

B. Religião

A Igreja Ortodoxa era braço ideológico do regime, legitimando o czar como escolhido por Deus. O misticismo tinha forte presença popular e chegou à corte com Rasputin, cuja influência sobre a czarina Alexandra desmoralizou a monarquia às vésperas da revolução.

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Essa fusão entre poder temporal e espiritual remonta ao cesaropapismo bizantino, herdado por Moscou após a queda de Constantinopla em 1453, quando a Rússia passou a se ver como a "Terceira Roma" e guardiã da verdadeira fé ortodoxa. O czar acumulava, assim, a chefia do Estado e a proteção da Igreja, que em troca pregava obediência como virtude cristã — um arranjo que o regime usava para esvaziar qualquer contestação política, apresentando a rebeldia contra o monarca como pecado.

Ao interferir em nomeações ministeriais e escândalos sexuais, tornou-se símbolo da decadência moral do regime — a aristocracia o acusava de desonrar a família imperial, e sua morte, em 1916, não apagou o descrédito.

C. Economia

Predominantemente agrária, com técnicas atrasadas e terra concentrada. A industrialização, iniciada nos anos 1890 com capital francês, belga e inglês, concentrou-se em grandes fábricas em poucas cidades — o que criou um proletariado numericamente pequeno, mas muito concentrado e organizável.

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A economia da Rússia pré-revolucionária combinava um setor agrário arcaico, baseado na servidão abolida apenas em 1861 e ainda dependente de técnicas rudimentares, com um setor industrial moderno, porém ilhado e dependente do capital estrangeiro. Essa dualidade gerou uma estrutura social explosiva: de um lado, camponeses miseráveis, endividados e famintos por terra; de outro, operários concentrados em poucos centros urbanos, como São Petersburgo e Moscou, submetidos a jornadas exaustivas e salários irrisórios.

D. Revolução cultural precedeu revolução política: virada do século XIX para o XX

A Rússia viveu efervescência intelectual e artística antes da ruptura política: Tolstói e Dostoiévski na literatura, o teatro de Stanislávski, as vanguardas construtivista e suprematista, e a difusão do marxismo entre a intelligentsia. A crítica cultural preparou o terreno da revolta.

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A efervescência cultural russa do fim do século XIX e início do XX não foi apenas um prelúdio decorativo da política: ela funcionou como laboratório de novas formas de consciência social, antecipando linguagens e debates que a revolução de 1917 tornaria programa de Estado.

O ponto central é entender que a autocracia czarista, ao censurar a política mas tolerar certa experimentação estética, empurrou a intelligentsia a fazer da arte e do pensamento um campo de crítica indireta à ordem vigente — daí a tese de que houve uma revolução cultural antes da revolução política.

E. Correntes de oposição ao czarismo

Os social-revolucionários, voltados ao campesinato; os cadetes, liberais que queriam monarquia constitucional; e os sociais-democratas marxistas, cindidos em 1903 entre bolcheviques (Lenin: partido restrito de revolucionários profissionais) e mencheviques (partido amplo, revolução por etapas).

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Para entender essas correntes, é preciso lembrar que a Rússia czarista era um império autocrático, agrário e atrasado industrialmente, onde a repressão política impedia qualquer oposição legal — daí a atuação na clandestinidade e o exílio de muitos líderes. Os social-revolucionários (SRs), herdeiros do populismo _narodnik_, viam no campesinato a força revolucionária central e defendiam a socialização da terra, bandeira que lhes dava enorme base rural; sua ala radical recorria ao terrorismo, como no assassinato do ministro Plehve (1904). Os cadetes (Partido Constitucional-Democrata), embora liberais, situavam-se à esquerda no espectro político da época: queriam constituição, parlamento e liberdades civis, mas sem revolução social.

Já entre os sociais-democratas, a cisão de 1903 no II Congresso do POSDR opôs a visão de Lenin — partido enxuto, disciplinado, de revolucionários profissionais, vanguarda que conduziria o proletariado — à de Martov, para quem o partido deveria ser amplo e aberto, aliado a uma revolução burguesa prévia antes do socialismo. Essas divergências explodiram em 1917: os bolcheviques, com o lema "Paz, Pão e Terra", romperam com o Governo Provisório e tomaram o poder em Outubro, enquanto os SRs, majoritários na Assembleia Constituinte eleita, foram esmagados pelos próprios bolcheviques.

2. As revoluções

Foram três momentos encadeados: o ensaio geral de 1905, a queda do czarismo em fevereiro de 1917 e a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro de 1917. O elemento comum é o papel dos sovietes, conselhos de operários, camponeses e soldados.

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O fio que costura os três momentos é a radicalização progressiva de um mesmo impasse: um regime autocrático incapaz de responder à modernização industrial e à guerra total. Em 1905, o Domingo Sangrento, quando a tropa czarista fuzilou manifestantes pacíficos diante do Palácio de Inverno, revelou que o czar Nicolau II só oferecia repressão; o Manifesto de Outubro, que criou a Duma, foi uma concessão parcial e logo esvaziada, e os sovietes, nascidos em São Petersburgo, ficaram como embriões de poder paralelo. A Primeira Guerra Mundial funcionou como catalisador decisivo: o recrutamento em massa, a fome nas cidades e as derrotas militares desmoralizaram o exército, enquanto a czarina Alexandra e Rasputin desacreditavam o trono.

Em fevereiro de 1917, a revolta espontânea das mulheres na fila do pão em Petrogrado, apoiada pela guarnição, derrubou a monarquia e instalou um governo provisório liberal de Kerensky ao lado do Soviete de Petrogrado, configurando um poder dual instável: o governo queria manter a Rússia na guerra e adiar a reforma agrária, enquanto o soviete pressionava por paz, pão e terra. As Teses de Abril de Lênin, formuladas em 1917, orientaram os bolcheviques a romper com essa ambigüidade, e a palavra de ordem "todo poder aos sovietes" captou o descontentamento popular; em outubro, a insurreição liderada pelo Comitê Militar Revolucionário tomou o Palácio de Inverno e entregou o governo ao Congresso dos Sovietes, que aprovou os decretos da paz e da terra.

A. Revolução de 1905

Deflagrada pelo Domingo Sangrento, quando a guarda czarista metralhou uma manifestação pacífica, e agravada pela derrota na guerra contra o Japão. Surgem os primeiros sovietes e o motim do encouraçado Potemkin. O czar concede a Duma e retrocede — foi o "ensaio geral" de 1917.

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A Revolução de 1905 costuma ser lembrada como um "ensaio geral" porque, embora tenha fracassado em derrubar o czarismo, revelou todas as tensões que explodiriam em 1917: a miséria camponesa, a exploração operária nas fábricas de Petrogrado e Moscou, a fraqueza do regime autocrático e a incapacidade do czar Nicolau II de conciliar modernização econômica com repressão política. O estopim foi o Domingo Sangrento, mas o que transformou o protesto em revolução foi a articulação de greves urbanas com revoltas camponesas e motins militares, como o do encouraçado Potemkin. O exemplo concreto mais importante é o surgimento dos sovietes: em outubro de 1905, durante a greve geral que paralisou o país, operários de São Petersburgo formaram o Soviete de Deputados Operários, presidido por Trotsky, que organizava greves, distribuía alimentos e desafiava a autoridade czarista — uma estrutura de poder paralela que serviria de modelo para 1917.

A resposta do czar foi dúplice: o Manifesto de Outubro prometia liberdades civis e uma Duma legislativa, mas, uma vez esmagada a revolta com violência, as promessas foram esvaziadas, a Duma ficou subordinada ao trono e a repressão voltou com força.

B. Revolução de Fevereiro de 1917

Greves e protestos por pão em Petrogrado, com forte participação das mulheres, levam à deserção das tropas e à abdicação de Nicolau II. Instala-se um duplo poder: o Governo Provisório de Kerensky, que insiste em manter a Rússia na guerra, e os sovietes.

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A Revolução de Fevereiro de 1917 deve ser entendida como o colapso súbito de um regime já corroído por contradições estruturais: a autocracia tsarista, sustentada pela burocracia, pela Igreja Ortodoxa e pela polícia política (Okhrana), mostrava-se incapaz de responder à industrialização tardia, à miséria camponesa e ao desgaste da Primeira Guerra Mundial, que mobilizou milhões e destruiu a economia de abastecimento. O conceito central aqui é o de revolução espontânea: diferentemente de Outubro, Fevereiro não teve um comando partidário único nem um programa articulado, mas resultou da convergência explosiva de fome, repressão e perda de legitimidade do tsar.

C. Revolução de Outubro de 1917

Lenin retorna do exílio e lança as Teses de Abril — "todo poder aos sovietes", "paz, terra e pão". Com o desgaste de Kerensky, os bolcheviques, apoiados na Guarda Vermelha organizada por Trotsky, tomam o Palácio de Inverno em outubro (novembro no calendário ocidental).

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Aprofundando o tema, a Revolução de Outubro de 1917 não foi um golpe improvisado, mas o desfecho de uma disputa política sobre o caráter da revolução: enquanto mencheviques e parte dos socialistas-revolucionários defendiam a etapa democrático-burguesa sob o governo provisório, Lenin sustentava que a Rússia poderia saltar direto para a fase socialista, dada a fraqueza da burguesia nacional e a força dos sovietes como organismos de poder popular concorrentes ao Estado. A palavra de ordem "todo poder aos sovietes" sintetizava essa tese: não se tratava de reformar o governo provisório, mas de substituí-lo por uma institucionalidade nascida das bases operárias e camponesas — os sovietes haviam surgido já em 1905 e ressurgido em fevereiro de 1917, funcionando como conselhos de delegados eleitos em fábricas, regimentos e aldeias.

Como exemplo concreto dessa tomada de poder, logo após a queda do Palácio de Inverno, já em novembro de 1917, o II Congresso Pan-Russo dos Sovietes aprovou o Decreto sobre a Paz, que propunha a saída imediata da Primeira Guerra Mundial sem anexações nem indenizações, e o Decreto sobre a Terra, que abolia a propriedade privada da terra sem indenização e a entregava aos camponeses por meio dos comitês agrários — medidas que, ao mesmo tempo, atendiam às demandas populares expressas em "paz, terra e pão" e rompiam com a ordem liberal. Note-se que a maioria bolchevique nos sovietes de Petrogrado foi decisiva para o sucesso da insurreição, conquistada às vésperas da ação, enquanto em Moscou a hegemonia bolchevique nos sovietes se consolidou apenas nos dias seguintes, o que mostra como o processo foi conflituoso e não linear.

3. Rússia socialista: Lênin (1917-1924)

Primeiras medidas: nacionalização de bancos e indústrias, distribuição de terras, controle operário, separação entre Igreja e Estado e direitos às mulheres, incluindo divórcio. A Assembleia Constituinte, em que os bolcheviques foram minoria, é dissolvida — inaugurando o partido único.

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O terceiro ponto do tópico trata da construção do primeiro Estado socialista da história sob a liderança de Vladimir Lênin, entre 1917 e 1924, período em que a teoria marxista precisou ser adaptada às condições concretas de um país atrasado e devastado pela guerra. Se o resumo anterior destaca as medidas imediatas e a dissolução da Constituinte, vale aprofundar o arranjo político que sustentou esse processo: o centralismo democrático, princípio de organização do Partido Bolchevique segundo o qual as decisões são debatidas livremente antes da votação, mas, uma vez aprovadas, tornam-se obrigatórias para todos os militantes, garantindo coesão diante das ameaças internas e externas.

Paralelamente, Lênin enfrentou o desafio de sair da Primeira Guerra Mundial sem perder territórios estratégicos, o que resultou no Tratado de Brest-Litovsk (março de 1918), pelo qual a Rússia cedeu vastas áreas à Alemanha — decisão dura, mas necessária para consolidar o poder revolucionário.

A. Tratado de Brest-Litovski (1918)

Paz separada com a Alemanha, cumprindo a promessa bolchevique de retirar a Rússia da guerra. O custo foi altíssimo: perda da Polônia, da Ucrânia, da Finlândia e dos países bálticos — cerca de um terço da população e da produção agrícola. Lenin argumentou que a sobrevivência da revolução vinha primeiro.

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O Tratado de Brest-Litovski insere-se no debate mais amplo sobre a natureza da revolução: para Lênin, a assinatura da paz era uma concessão tática indispensável, pois significava ganhar tempo para consolidar o poder soviético diante da guerra civil e da intervenção estrangeira que se anunciavam. As condições impostas pelos alemães foram draconianas: a Rússia perdeu cerca de 1 milhão de km², 56 milhões de habitantes — quase um terço da população —, 32% da produção agrícola, 54% da capacidade industrial e 26% das ferrovias, além do reconhecimento da independência da Finlândia, da Ucrânia, da Polônia e dos países bálticos.

B. Governo bolchevique

Poder concentrado no partido, com o Conselho dos Comissários do Povo. Criação da Tcheka, polícia política, e do Exército Vermelho, organizado por Trotsky. Instaura-se o partido único, e as demais correntes revolucionárias são progressivamente excluídas.

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O governo bolchevique consolidou um modelo de poder que combinava a direção centralizada do partido com a criação de instituições coercitivas, elemento essencial para entender como a revolução deixou de ser um movimento plural para se tornar um regime de partido único. O ponto de partida é o centralismo democrático, princípio formulado por Lênin que previa liberdade de debate interno antes da decisão, mas obrigação de disciplina e execução unânime depois dela; na prática, com a guerra civil e o cerco das potências estrangeiras, esse mecanismo serviu para justificar a proibição das frações dentro do partido no X Congresso de 1921, silenciando oposições como a dos operários e a dos mencheviques.

C. Guerra Civil (1918-1921)

Exército Vermelho contra os Brancos — czaristas, liberais e mencheviques —, apoiados por 14 países estrangeiros, inclusive Inglaterra, França, EUA e Japão. Vitória bolchevique ao custo de milhões de mortos e da política de comunismo de guerra, com requisição forçada de alimentos.

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A Guerra Civil Russa (1918-1921) foi o conflito decisivo que consolidou o poder bolchevique e definiu a natureza do futuro Estado soviético, opondo o recém-criado Exército Vermelho, organizado por Trotsky com disciplina rigorosa e mobilização obrigatória, a uma coligação heterogênea de forças contrarrevolucionárias conhecidas como Exército Branco — monarquistas, liberais, socialistas moderados e nacionalistas —, fragmentada por divergências políticas e sem projeto comum além de derrubar Lênin, o que facilitou a vitória bolchevique apesar do apoio militar estrangeiro. O exemplo mais concreto é a ofensiva do almirante Kolchak, que em 1919 avançou pela Sibéria até quase tomar Moscou, sendo detido pela contraofensiva vermelha e posteriormente executado, episódio que ilustra tanto a ameaça real quanto a desunião branca.

Para sustentar o esforço de guerra, Lênin impôs o comunismo de guerra: nacionalização da indústria, requisição forçada de grãos no campo e centralização do trabalho, medidas que garantiram a sobrevivência do regime mas geraram fome, revoltas camponesas — como a de Tambov — e a rebelião dos marinheiros de Kronstadt em 1921, sufocada militarmente e que levou à substituição do comunismo de guerra pela NEP (Nova Política Econômica), recuo tático com concessões ao mercado.

D. Pós-Guerra Civil: Nova Política Econômica – NEP (1921-1928)

Diante da fome e da revolta de Kronstadt, Lenin recua taticamente: permite pequeno comércio privado, arrendamento de terras e capital estrangeiro, mantendo estatais os setores estratégicos. A produção se recupera, mas surgem os kulaks e novos comerciantes enriquecidos.

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A NEP representou uma retirada estratégica do comunismo de guerra, mas Lenin a concebeu como recuo transitório, não como modelo definitivo: em textos como "Sobre a Cooperativa" e "Mais Vale Pouco e Bom", ele admitia que a transição ao socialismo seria longa e passaria pela convivência com elementos capitalistas sob controle do Estado operário. Na prática, a NEP instituiu um imposto em espécie (prodrazvyorstka substituída pela prodnalog) que liberava o camponês para vender o excedente no mercado, e autorizou a formação de trustes e sindicatos estatais que operavam com critérios de lucro, além de concessões a capitalistas estrangeiros, como a Lena Goldfields, mineradora britânica que explorou ouro na Sibéria nos anos 1920.

O exemplo concreto mais emblemático é a recuperação agrícola: entre 1921 e 1926, a produção de grãos saltou de cerca de 37 milhões para mais de 76 milhões de toneladas, e a indústria leve retomou níveis pré-1914, embora a indústria pesada permanecesse estagnada. Essa assimetria gerou a crise das tesouras (1923), quando os preços industriais dispararam frente aos agrícolas, provocando greves e descontentamento camponês. No plano político, a NEP conviveu com a proibição de frações internas no Partido (1921) e com a doença e morte de Lenin (1924), abrindo espaço para a disputa sucessória entre Stálin, Trotsky, Zinoviev e Bukharin. As provas costumam cobrar a NEP em três eixos: a comparação com o comunismo de guerra, a interpretação do recuo como tática versus traição revolucionária (crítica trotskista original, não de Trotsky à degeneração, que veio depois) e a relação entre NEP e stalinismo, já que a coletivização forçada de 1929 representou o fim desse período.

É comum aparecerem questões que pedem para relacionar a NEP ao conceito de "capitalismo de Estado" formulado por Lenin, ou que exigem do aluno a distinção entre a NEP como política econômica e o debate político sobre a burocratização do partido, temas frequentes na Fuvest e na Unicamp.

E. União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)

Fundada em 1922, reunia repúblicas formalmente autônomas — Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Transcaucásia, chegando a 15 — sob um único partido. Na prática, o poder era altamente centralizado em Moscou, sob controle do Partido Comunista.

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A URSS não foi apenas um nome novo para o velho Império Russo: ela institucionalizou uma tensão que atravessa toda a história soviética, o contraste entre a fachada federativa e a realidade unitária. Formalmente, cada república tinha seu próprio governo, constituição e até o direito teórico de se separar, previsto no artigo 4º da Constituição de 1924, mas esse direito nunca foi exercido sem represália, como mostraria a invasão da Hungria em 1956 ou da Tchecoslováquia em 1968, quando tentativas de afastamento do bloco soviético foram esmagadas. O exemplo concreto mais eloquente está na própria arquitetura institucional: a Rússia, embora fosse apenas uma das repúblicas, concentrava a capital federal, o Comitê Central e a chefia do partido, de modo que quem controlasse Moscou controlava a União inteira.

A criação da URSS em 1922 respondeu, assim, a dois imperativos simultâneos: acomodar as nacionalidades não russas, que haviam sido incorporadas à força pelo Império czarista, oferecendo-lhes uma autonomia de papel que evitasse explosões nacionalistas logo após a guerra civil, e garantir a hegemonia bolchevique sobre todo o antigo espaço imperial, evitando que a Ucrânia ou a Geórgia seguissem caminhos próprios. O resultado foi um federalismo nominalmente étnico, mas organicamente centralizado, em que as fronteiras internas muitas vezes foram traçadas mais por conveniência administrativa do que por critérios históricos ou culturais, como no caso da Crimeia, transferida da Rússia para a Ucrânia em 1954 por decisão de Kruschev, episódio que voltaria a ter peso dramático em 2014.

Em síntese, entender a URSS como federação de fachada e Estado unitário de fato é decisivo para compreender por que, após 1991, as repúblicas puderam se separar com relativa facilidade: a estrutura jurídica, embora nunca usada antes, forneceu o instrumento formal para a dissolução, mostrando que o federalismo soviético, ainda que instrumental, nunca foi uma ficção completa, mas uma contradição constitutiva que só se resolveu com o colapso do próprio sistema.

F. 1924

Morte de Lenin. Em seu testamento político, advertia contra a concentração de poder nas mãos de Stálin, então secretário-geral, e sugeria removê-lo do cargo. O documento foi abafado, e Stálin usou o culto ao líder morto para se apresentar como seu herdeiro legítimo.

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A morte de Lenin, em janeiro de 1924, abriu uma disputa sucessória que definiria os rumos da URSS e do próprio socialismo no século XX. O poder passou a ser exercido por uma troika formada por Zinoviev (presidente do Comintern), Kamenev (vice-presidente do Sovnarkom) e Stálin (secretário-geral do partido desde 1922), aliança que inicialmente isolou Trotsky, então chefe do Exército Vermelho. O embate central opunha duas teses: a "revolução permanente" de Trotsky, que defendia a expansão do processo revolucionário para a Europa como condição de sobrevivência do socialismo num país atrasado, e o "socialismo num só país", formulado por Stálin em 1924 e adotado como linha oficial em 1925, segundo o qual a URSS poderia consolidar o socialismo internamente antes de qualquer nova onda revolucionária.

O conceito-chave aqui é o de luta interna no partido: o poder stalinista não nasceu de um golpe militar, mas do controle do aparato burocrático do partido, que permitia nomear e demitir quadros nas bases. Exemplo concreto: em 1925, no XIV Congresso, a troika já se havia rompido; Stálin aliou-se a Bukharin para derrotar Zinoviev e Kamenev, e depois, em 1927, voltou-se contra a própria Oposição de Esquerda, expulsando Trotsky do partido e, em 1929, deportando-o — episódio que ilustra a "guerra de posições" dentro da burocracia partidária. Nos vestibulares, o tema aparece com frequência associado ao testamento de Lenin: a Fuvest e a Unicamp costumam cobrar a leitura do documento como evidência de que a ascensão de Stálin foi resultado de manobras internas, e não de um consenso partidário, enquanto o Enem privilegia a relação entre a NEP, a morte de Lenin e a consolidação do modelo soviético.

Vale lembrar que a tese do "socialismo num só país" não era apenas retórica: ela justificava a prioridade dada à industrialização interna e o posterior abandono da NEP, servindo de base ideológica para os planos quinquenais a partir de 1928, o que mostra como a disputa pós-1924 teve desdobramentos econômicos duradouros.

G. Disputa

Confronto entre Trotsky, defensor da revolução permanente — a revolução teria de se internacionalizar para sobreviver —, e Stálin, que propunha o socialismo num só país. Stálin venceu pelo controle da máquina partidária; Trotsky foi expulso, exilado e assassinado no México em 1940.

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A disputa entre Trotsky e Stálin não era apenas teórica, mas refletia projetos distintos de poder e sobrevivência do Estado soviético — enquanto Trotsky, herdeiro direto da tradição internacionalista de Lênin, defendia a revolução permanente, segundo a qual a vitória do socialismo em um país atrasado só se sustentaria se o processo se espalhasse para nações industrializadas, sobretudo a Alemanha, Stálin, a partir de 1924, formulou o socialismo num só país, tese de que a URSS poderia construir o socialismo internamente, sem depender de revoluções externas, o que soava mais realista às massas cansadas de guerra e isoladas diplomaticamente.

4. O stalinismo até a Segunda Guerra Mundial

Regime de partido único, culto à personalidade e Estado policial. Industrialização acelerada e coletivização forçada transformaram a URSS em potência industrial em duas décadas, ao custo de fome — o Holodomor na Ucrânia —, deportações e milhões de mortos.

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Após a morte de Lênin em 1924, Stalin venceu a disputa interna contra Trotsky defendendo o "socialismo num só país", tese que justificava priorizar a consolidação interna em vez da revolução mundial permanente, e a partir de 1928 impôs os Planos Quinquenais, que fixavam metas de produção para industrializar a URSS à custa da agricultura e do consumo popular. O exemplo concreto mais emblemático é a coletivização forçada dos campos: camponeses kulaks foram deportados ou executados, e a requisção da produção gerou o Holodomor (1932-33), fome que matou milhões na Ucrânia; nas cidades, o stakhanovismo e as metas absurdas criaram uma economia de escassez, enquanto o Grande Terror (1936-38) eliminou opositores reais e imaginários via expurgos, julgamentos de Moscou e o Gulag.

Ao término desse processo, a URSS chegou a 1941 como segunda potência industrial do mundo e base material decisiva para a vitória sobre o nazismo, mas o preço foi a consolidação de um regime totalitário que, se por um lado garantiu a sobrevivência do Estado soviético na Segunda Guerra Mundial, por outro aprofundou o isolamento, a burocratização do partido e um legado de violência estatal que marcaria toda a história posterior da União Soviética, sendo, por isso, um dos temas mais recorrentes em vestibulares que cobram a relação entre modernização autoritária e violação de direitos humanos.

A. Centralização e censura

Os Grandes Expurgos (1936-1938) eliminaram opositores reais e imaginários, com julgamentos de fachada, execuções e os campos de trabalho do Gulag. Arte e ciência foram submetidas ao realismo socialista, e a história oficial reescrita, com fotografias adulteradas.

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A centralização stalinista não se resumiu à repressão física: ela construiu um sistema de poder pessoal em que o Partido, o Estado e a figura de Stálin se confundiam, anulando qualquer distinção entre dissidência política e crime comum. O instrumento central foi o artigo 58 do código penal soviético, que tipificava como "atividade contrarrevolucionária" desde uma piada política até o atraso involuntário de uma fábrica, permitindo que a NKVD (polícia política) prendesse praticamente qualquer cidadão sem provas materiais, valendo-se de denúncias anônimas e confissões obtidas por tortura — o que explica a expressão "opositores reais e imaginários" do resumo.

O culto à personalidade, alimentado por cartazes, cinejornais e pela História do Partido Comunista (versão curta) de 1938, reescrevia o passado para dar a Stálin papel central na Revolução de 1917, apagando Trotski das fotos e dos livros. A menção ao Pacto Germano-Soviético (1939), que o resumo apenas insinua ao falar do período até a Segunda Guerra, serve para lembrar que a centralização também teve dimensão diplomática: Stálin usou o acordo com Hitler para ganhar tempo e território, mas a ruptura de 1941 expôs a fragilidade interna de um regime que havia eliminado seus melhores quadros militares.

B. Planos Quinquenais, economia planificada

O Gosplan definia metas de produção para cinco anos, com prioridade absoluta à indústria pesada e aos armamentos, em detrimento de bens de consumo. A coletivização da agricultura em kolkhozes e sovkhozes enfrentou resistência dos camponeses e causou queda de produção e fome em massa.

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Os Planos Quinquenais foram o instrumento central da economia planificada soviética, um sistema em que o Estado, e não o mercado, decidia o que, quanto e como produzir, fixando preços, salários e alocação de mão de obra por decreto. A lógica era a chamada "acumulação primitiva socialista": extrair recursos da agricultura e do consumo popular para financiar a industrialização acelerada, transformando a URSS de país agrário atrasado em potência industrial em poucas décadas. O Primeiro Plano (1928-1932) é o exemplo clássico: enquanto a produção de ferro, carvão e aço disparava e surgiam complexos como Magnitogorsk e a usina hidrelétrica de Dnieprostroi, a meta de coletivização foi cumprida à força, com a liquidação dos "kulaks" (camponeses ricos), deportações em massa e a fome do Holodomor ucraniano (1932-33), que matou milhões.