1. Contexto europeu
O Bloqueio Continental de Napoleão (1806) proíbe o comércio europeu com a Inglaterra. Portugal, aliado histórico dos ingleses e economicamente dependente deles, não adere. Ameaçada de invasão, a Corte opta por transferir-se para o Brasil, sob escolta da esquadra britânica, em 1807.
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Aquele resumo capta o essencial, mas vale destrinchar as engrenagens que transformaram uma guerra europeia em independência brasileira. O Bloqueio Continental fazia parte da estratégia maior de Napoleão, o Sistema Continental, com o qual ele pretendia sufocar a economia britânica e, com isso, forçar a Inglaterra à mesa de negociações e consolidar a hegemonia francesa sobre a Europa. Como Portugal era o parceiro comercial mais antigo e fiel da Inglaterra — o Tratado de Methuen (1703) garantia vantagens mútuas —, aderir ao bloqueio significava arruinar a economia lusitana e o próprio tesouro real, que dependia dos produtos ingleses e do ouro brasileiro que escoava por Lisboa.
A saída encontrada por D. João não foi original: já existia desde o século XVII a ideia de transferir a sede da monarquia para a América, mas foi a conjuntura que a tornou urgente e viável, graças ao apoio logístico da Marinha britânica, que escoltou a família real, a nobreza e a burocracia estatal em cerca de 15 mil pessoas, além de arquivos e do tesouro, em 1807. O exemplo mais concreto desse desdobramento é a Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808), decretada logo após a chegada, que rompeu o Pacto Colonial e subordinou o Brasil aos interesses ingleses, com tarifas alfandegárias privilegiadas para produtos britânicos — uma antecipação da ruptura definitiva com Portugal.