F1 · Aulas 23–24

O Governo Joanino e o processo de independência do Brasil

1. Contexto europeu

O Bloqueio Continental de Napoleão (1806) proíbe o comércio europeu com a Inglaterra. Portugal, aliado histórico dos ingleses e economicamente dependente deles, não adere. Ameaçada de invasão, a Corte opta por transferir-se para o Brasil, sob escolta da esquadra britânica, em 1807.

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Aquele resumo capta o essencial, mas vale destrinchar as engrenagens que transformaram uma guerra europeia em independência brasileira. O Bloqueio Continental fazia parte da estratégia maior de Napoleão, o Sistema Continental, com o qual ele pretendia sufocar a economia britânica e, com isso, forçar a Inglaterra à mesa de negociações e consolidar a hegemonia francesa sobre a Europa. Como Portugal era o parceiro comercial mais antigo e fiel da Inglaterra — o Tratado de Methuen (1703) garantia vantagens mútuas —, aderir ao bloqueio significava arruinar a economia lusitana e o próprio tesouro real, que dependia dos produtos ingleses e do ouro brasileiro que escoava por Lisboa.

A saída encontrada por D. João não foi original: já existia desde o século XVII a ideia de transferir a sede da monarquia para a América, mas foi a conjuntura que a tornou urgente e viável, graças ao apoio logístico da Marinha britânica, que escoltou a família real, a nobreza e a burocracia estatal em cerca de 15 mil pessoas, além de arquivos e do tesouro, em 1807. O exemplo mais concreto desse desdobramento é a Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808), decretada logo após a chegada, que rompeu o Pacto Colonial e subordinou o Brasil aos interesses ingleses, com tarifas alfandegárias privilegiadas para produtos britânicos — uma antecipação da ruptura definitiva com Portugal.

2. Fim do pacto colonial do Brasil

Ao chegar à Bahia em 1808, D. João decreta a Abertura dos Portos às Nações Amigas — na prática, à Inglaterra —, encerrando o exclusivo metropolitano. Seguem-se o alvará de liberdade industrial (1808) e os tratados de 1810, com tarifas preferenciais que inviabilizam a indústria local.

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O fim do pacto colonial não foi um ato isolado, mas um processo que combinou a ruptura jurídica de 1808 com a permanência de estruturas econômicas herdadas da colônia: a Abertura dos Portos eliminou o monopólio comercial, porém manteve a grande propriedade escravista, o latifúndio monocultor e a dependência externa, agora reorientada da metrópole para a Inglaterra. Nesse sentido, o fim do exclusivo significou menos uma libertação econômica do que uma recolonização informal: se antes o Brasil vendia a Portugal e comprava dele, passou a vender matérias-primas baratas e comprar manufaturados caros dos ingleses, que ainda gozavam de tarifas preferenciais de 15% contra 24% dos produtos portugueses.

3. Declínio da Europa napoleônica

A derrota na Rússia (1812) e em Waterloo (1815) leva ao Congresso de Viena, que restaura as monarquias e o princípio da legitimidade. Portugal, sem seu rei, é administrado por uma junta e por oficiais ingleses — humilhação que alimentaria a Revolução do Porto.

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O declínio da Europa napoleônica, mais do que uma simples sequência de derrotas militares, representa a virada decisiva do tabuleiro político que redefiniria os rumos de Portugal e, por consequência, do Brasil. Após a desastrosa campanha da Rússia em 1812, Napoleão ainda resistiu por dois anos, mas a derrota esmagadora na Batalha de Leipzig (1813), também chamada de Batalha das Nações, selou seu destino: em 1814, os exércitos coligados invadiram Paris, forçaram sua abdicação e o exilaram na ilha de Elba. O retorno triunfal durante os Cem Dias, em 1815, terminou definitivamente em Waterloo, e o imperador foi deportado para Santa Helena. Sobre as ruínas do império, as potências vitoriosas — Áustria, Rússia, Prússia e Inglaterra — costuraram o Congresso de Viena (1814-1815), cujos princípios de legitimidade dinástica, restauração e equilíbrio europeu buscavam apagar o mapa napoleônico e impedir novas aventuras revolucionárias, criando ainda a Santa Aliança, um pacto conservador para intervir onde a ordem monárquica fosse ameaçada.

O exemplo concreto mais importante para nós: Portugal, cuja corte estava no Rio desde 1808 sob proteção inglesa, viu-se representado em Viena por um governo ausente e tutelado por Beresford, o que feriu o orgulho nacional e alimentou a conspiração liberal que explodiria na Revolução do Porto em 1820 — evento que, ao exigir o retorno de D. João VI, precipitou o processo de independência do Brasil em 1822.

4. Interiorização da metrópole

O Rio torna-se sede do Império: criam-se Banco do Brasil, Imprensa Régia, Biblioteca, Jardim Botânico, escolas de medicina e a Missão Artística Francesa. Em 1815, o Brasil é elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves. Os custos recaíram sobre as províncias, sobretudo o Nordeste.

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A interiorização da metrópole, conceito clássico de Maria Odila Leite da Silva Dias, designa a transferência do aparato estatal português para o Brasil em 1808, com a vinda da família real, e o consequente enraizamento dos interesses da elite colonial no próprio território: a Corte deixa de ser um centro distante e explorador para se instalar no Rio, fazendo com que a burocracia, os negócios e a política se reorganizem em torno da nova sede. Isso significa que a antiga relação colonial — colônia subordinada à metrópole europeia — se desloca para dentro da América, criando condições para a futura independência, pois a ruptura de 1822 será menos uma revolução anticolonial e mais uma acomodação entre a elite brasileira e a monarquia aqui instalada.

Exemplo concreto: a abertura dos portos às nações amigas, em 1808, rompeu o pacto colonial e beneficiou diretamente comerciantes e produtores que passaram a negociar com a Inglaterra sem intermediários portugueses, ao mesmo tempo que a elevação a Reino Unido, em 1815, dava ao Brasil status de parceiro e não de possessão, aprofundando esse processo.

5. Revolução Pernambucana (1817)

Movimento republicano e separatista em Recife, com padres, militares, comerciantes e proprietários. Motivos: crise do açúcar e do algodão, seca, tributos para sustentar a Corte no Rio e influência iluminista. Instalou governo provisório por 74 dias; foi duramente reprimida.

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A Revolução Pernambucana de 1817 foi a mais séria ruptura da ordem colonial antes da Independência, pois não se limitou a protestos: ergueu um governo republicano de fato, com Constituição provisória, bandeira própria, abolição de tributos régios e liberdade de imprensa, revelando que a insatisfação com a Corte no Rio se combinava a um projeto político alternativo inspirado na Revolução Francesa e na independência dos EUA.

6. Revolução Liberal do Porto (1820)

Movimento burguês em Portugal que exigia constituição, retorno do rei e recolonização do Brasil, com o fim da abertura dos portos. D. João VI volta em 1821 e deixa D. Pedro como regente. As Cortes de Lisboa passam a anular as conquistas brasileiras.

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A Revolução Liberal do Porto (1820) nasceu de uma crise estrutural que combinava a ausência da corte, a dominação inglesa desde 1808 e a penúria econômica portuguesa após as guerras napoleônicas, e seu caráter dual — liberal em Portugal, recolonizador no Brasil — é justamente o ponto que a torna decisiva para a Independência: ao exigir uma Constituição e o fim do absolutismo, a burguesia portuária queria um Estado moderno, mas esse mesmo Estado deveria recuperar o monopólio colonial perdido com a Abertura dos Portos (1808) e com o Reino Unido a Portugal e Brasil (1815), o que explica por que as Cortes de Lisboa, eleitas em 1821, aprovaram medidas como a subordinação das províncias brasileiras diretamente a Lisboa, a exigência do retorno de D. Pedro e a extinção dos tribunais criados por D.

João VI, tratando o Brasil como colônia novamente submetida — um exemplo concreto e revelador é a ordem para que D. Pedro voltasse a Portugal em 1821, cujo descumprimento, materializado no Dia do Fico (janeiro de 1822), transformou a resistência brasileira em ruptura definitiva, mostrando que a Revolução do Porto, ao tentar recolonizar, acabou acelerando exatamente o que pretendia evitar; nas provas, o tema costuma aparecer em questões que pedem a relação entre liberalismo europeu e colonialismo (Fuvest e Unicamp gostam de explorar essa contradição), em itens que cobram a sequência cronológica Revolução do Porto → retorno de D. João VI → Cortes de Lisboa → Fico → Independência, e em alternativas que confundem o liberalismo português com liberalismo brasileiro, exigindo do candidato a percepção de que os liberais do Porto eram liberais apenas para Portugal, não para o Brasil.

7. A Proclamação da Independência do Brasil

Diante da exigência de retorno, D. Pedro responde com o Dia do Fico (9 de janeiro de 1822), convoca Assembleia Constituinte e adota o “Cumpra-se”. A ruptura formal ocorre em 7 de setembro de 1822. Houve resistência armada na Bahia, no Piauí, no Maranhão e no Pará até 1823.

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A Proclamação da Independência, mais que um gesto simbólico às margens do Ipiranga, foi o desfecho de uma ruptura política que já vinha sendo construída desde a transferência da Corte em 1808 e se acelerou com as Cortes de Lisboa, que pretendiam recolonizar o Brasil reduzindo-o novamente à condição de colônia subordinada. O 7 de setembro representa a formalização da separação, mas seu significado profundo está no arranjo político que a sustentou: uma independência conduzida pela elite agrária e pelo próprio herdeiro do trono português, o que preservou a monarquia, a escravidão e a estrutura latifundiária, diferenciando radicalmente o processo brasileiro das independências hispano-americanas, marcadas por guerras prolongadas e projetos republicanos.

Assim, dominar esse tópico exige compreender que a data é um marco, mas seu verdadeiro sentido está nas permanências que ela consolidou.

8. Características da independência

Conduzida pela elite agrária e por um príncipe português, preservou a monarquia, a unidade territorial, o latifúndio e, sobretudo, a escravidão. Não houve mudança social. O reconhecimento veio a alto preço: indenização de 2 milhões de libras a Portugal, emprestadas pela Inglaterra.

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A independência brasileira de 1822 não rompeu apenas com Portugal, mas com qualquer projeto de transformação social mais profunda, e é essa natureza conservadora que as bancas cobram com mais frequência. Diferentemente das independências hispano-americanas, marcadas por guerras prolongadas e fragmentação em várias repúblicas, o Brasil manteve a monarquia, a unidade territorial e a economia agroexportadora escravista. O exemplo mais concreto é a Constituição de 1824, outorgada por D. Pedro I: embora instituísse o Poder Moderador e um voto censitário, ela simplesmente ignorou qualquer medida abolicionista ou de reforma agrária, confirmando o pacto entre o imperador e a elite proprietária.

A Confederação do Equador (1824), em Pernambuco, surgiu justamente como reação a esse arranjo centralizador e excludente, demonstrando que a independência não resolveu as tensões regionais e sociais. Outro ponto crucial, que costuma aparecer em questões de múltipla escolha e dissertativas, é o reconhecimento internacional: os Estados Unidos foram os primeiros a reconhecer (1824, Doutrina Monroe), mas Portugal só o fez em 1825, mediante o Tratado de Paz e Aliança, no qual o Brasil comprometeu-se a pagar 2 milhões de libras esterlinas — valor que, na prática, correspondia a assumir dívidas portuguesas com a Inglaterra, não a uma indenização direta a Portugal.

Esse endividamento externo hipotecou a economia nacional por décadas e revelou a dependência britânica. As provas costumam cobrar a comparação com a América espanhola, a manutenção da escravidão como base do projeto vitorioso e a atuação da Inglaterra como fiadora do processo, além de relacionar a independência à posterior formação do Estado imperial e às revoltas regenciais. Entender que a independência foi uma revolução política sem revolução social é o fio condutor para acertar as questões mais elaboradas sobre o tema.