1. Introdução
Na transição do feudalismo ao capitalismo, forma-se o Estado moderno centralizado. Explica-se pela aliança entre rei e burguesia: esta financia a centralização em troca de unificação de moedas, pesos, leis e do fim dos pedágios feudais; o rei ganha exército e burocracia permanentes.
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O absolutismo deve ser entendido não como simples concentração de poder nas mãos do rei, mas como a forma política típica da transição do feudalismo ao capitalismo, na qual a soberania do Estado se sobrepõe aos particularismos feudais e passa a ser exercida em um território unificado. Diferente da monarquia medieval, limitada por senhores, clero e corporações, a monarquia absolutista concentra a autoridade legislativa, judicial, fiscal e militar, contando com exército permanente, burocracia, impostos regulares e diplomacia. Sua legitimação teórica variou: Bodin formulou a soberania como poder perpétuo e indivisível; Hobbes justificou o Leviatã pelo contrato social que evita a guerra de todos contra todos; Bossuet recorreu ao direito divino; Maquiavel separou a política da moral cristã.
Essa ordem não significava ausência de limites: o rei dependia da nobreza, da Igreja e, sobretudo, do financiamento da burguesia, que custeava guerras e a máquina administrativa em troca de unificação monetária, padronização de pesos e medidas, eliminação de pedágios internos, proteção alfandegária e segurança jurídica para os negócios — daí a aliança entre rei e burguesia ser o motor material da centralização, ainda que tensa e variável conforme o reino. O exemplo clássico é a França de Luís XIV (1643-1715), o "Rei Sol": Versalhes, intendentes, Colbert e o mercantilismo expressam a fusão entre poder régio e interesses mercantis. A Inglaterra, em contraste, após a Revolução Gloriosa (1688-1689), consolidou uma monarquia parlamentar com o Bill of Rights, limitando o rei pelo Parlamento — prova de que o absolutismo não foi etapa universal e necessária, mas resultado de condições históricas específicas.