F2 · Aula 43

O imperialismo II: visão a partir da África

A. África islâmica

Norte do continente, sob influência otomana em declínio. O Egito, com o Canal de Suez (1869), torna-se peça estratégica e cai sob controle britânico em 1882. Argélia e Tunísia vão para a França; a Líbia, para a Itália. A resistência assumiu forma religiosa, como o movimento Mahdista no Sudão.

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A África islâmica interessa menos por suas fronteiras religiosas e mais por sua posição no xadrez do imperialismo tardio: ali, expansão colonial, disputa entre potências e resistência local se cruzam de modo exemplar. O conceito-chave é o de imperialismo indireto, isto é, o recurso a protetorados, companhias concessionárias, dívidas e administrações nativas para controlar territórios sem ocupação massiva — típico do norte africano, onde elites muçulmanas, confrarias sufis e mercadores transaarianos já mantinham redes próprias e negociavam com europeus em pé de igualdade relativa. Essa estrutura econômica prévia, baseada no comércio de caravanas, sal, ouro e escravos, entrou em colapso quando o capital financeiro europeu passou a exigir mercados cativos, empréstimos e escoamento de matérias-primas, transformando chefes locais em devedores ou intermediários subordinados.

O exemplo concreto é a Regência de Túnis: endividada, aceitou em 1869 uma comissão financeira anglo-franco-italiana, e em 1881, sob o Tratado de Bardo, tornou-se protetorado francês — sem que a Conferência de Berlim (1884-85) tivesse "autorizado" avanço algum pelos interiores; ela apenas fixou regras de partilha, enquanto a França já ocupava a Argélia desde 1830 e a Itália invadiria a Líbia só em 1911, num expansionismo unilateral e tardio. No plano cultural, a resistência islâmica organizou-se em torno da jihad e de lideranças carismáticas, como Muhammad Ahmad, o Mahdi do Sudão, que derrotou os britânicos em 1885 e só foi vencido em 1898, mostrando que a religião funcionou como linguagem política de mobilização anticolonial.

B. África Oriental

Região de antigo comércio com o mundo árabe e índico, através de portos suaílis. Disputada por Inglaterra, Alemanha e Itália. Na Etiópia, Menelik II derrotou os italianos em Adua (1896) — único caso de país africano que preservou a independência frente à partilha.

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A África Oriental tornou-se alvo central da partilha porque combinava valor estratégico e econômico: o controle do Canal de Suez e do litoral do Oceano Índico garantia a rota para a Índia e o Extremo Oriente, enquanto o interior oferecia marfim, borracha e, sobretudo, terras férteis para colonos. O avanço europeu rompeu séculos de integração suaíli, que ligava Mombaça, Zanzibar e Quelimane ao comércio árabe-persa. Para justificar a ocupação, usou-se a Conferência de Berlim (1884-85), que estabeleceu o princípio da ocupação efetiva, forçando potências a militarizar o território. Alemães criaram a África Oriental Alemã (atual Tanzânia, Ruanda e Burundi), onde a resistência Hehe foi esmagada em 1898; ingleses avançaram pelo vale do Nilo e criaram o Protetorado de Uganda e a África Oriental Britânica (Quênia), base do polêmico projeto de ferrovia e do assentamento de colonos brancos nas terras altas.

A Itália, tardiamente unificada, buscou compensações: após comprar Assab e Massaua, invadiu a Abissínia (Etiópia), mas foi aniquilada em Adua (1896), derrota que forçou o Tratado de Adis Abeba e reconheceu a soberania etíope — exceção que se explica pela unidade política sob Menelik II, pelo apoio popular e pelo fornecimento de armas francesas e russas.

C. África Ocidental

Área de antigos reinos (Ashanti, Daomé, Sokoto) e principal fornecedora do tráfico atlântico. Repartida sobretudo entre França e Inglaterra. O caso mais violento é o Estado Livre do Congo, propriedade pessoal de Leopoldo II da Bélgica, com milhões de mortos na extração da borracha.

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Além da partilha formal, a África Ocidental ilustra a passagem do imperialismo comercial para o colonialismo direto: se até meados do século XIX os europeus limitavam-se a feitorias e ao comércio de escravos, a partir de 1880 potências como França e Inglaterra passaram a ocupar territórios para controlar rotas, matérias-primas e mercados, usando a Conferência de Berlim (1884-85) para legitimar a ocupação efetiva como critério de soberania. Como exemplo concreto, a França avançou do Senegal para o interior, criando a África Ocidental Francesa (AOF, 1895) e esmagando a resistência de Samori Touré no Sudão Francês, hoje Mali, enquanto a Inglaterra anexou o interior da Costa do Ouro após guerras contra os Ashanti, como a guerra de 1873-74, e incorporou a Nigéria combinando companhias concessionárias e força militar.

No caso do Congo, a violência não foi exceção: o regime de Leopoldo II, denunciado por Roger Casement e Joseph Conrad, baseou-se em trabalho forçado e mutilações para extrair borracha e marfim, com estimativas de mortos variando entre cinco e dez milhões.

D. Conferência de Berlim (1884-1885)

Convocada por Bismarck, reuniu 14 potências europeias — sem nenhum africano — para regular a partilha. Estabeleceu o princípio da ocupação efetiva: só teria direito ao território quem o ocupasse militar e administrativamente. As fronteiras artificiais que traçou são causa direta de conflitos étnicos até hoje.

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Mais do que um ato solene de partilha, a Conferência de Berlim deve ser entendida como uma tentativa de regulação das rivalidades imperialistas, e não como a partição em si: os territórios não foram literalmente distribuídos ali como fatias de um bolo, mas foram fixadas regras para que as potências pudessem reivindicar áreas ainda não ocupadas, evitando guerras diretas entre elas — daí o princípio da ocupação efetiva, que funcionou como gatilho para uma corrida militar por territórios até então apenas visitados por exploradores e missionários.

Consequências diretas são a separação de comunidades do mesmo grupo étnico, como os iorubás, divididos entre a Nigéria e o Benim, e a fusão de grupos rivais dentro de um mesmo território, como hutus e tutsis no Ruanda, herança trágica que culminou no genocídio de 1994.