F2 · Aulas 39–40

O Congresso de Viena, as revoluções de 1830 e 1848, as unificações alemã e italiana e a Comuna de Paris

1. O que é nacionalismo?

Sentimento de pertencimento a uma nação definida por língua, cultura, história e território, que reivindica um Estado próprio. Difundido pela Revolução Francesa e por Napoleão, foi ignorado pelo Congresso de Viena — e por isso alimentou as revoluções de 1830 e 1848 e as unificações italiana e alemã.

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O nacionalismo, mais do que um simples sentimento de pertencimento, é uma construção histórica e política que ganhou força decisiva a partir do final do século XVIII, quando a ideia de soberania popular passou a associar o poder do Estado à vontade de um povo culturalmente unido; assim, a nação deixou de ser apenas uma comunidade imaginada para se tornar um projeto de poder que reivindica fronteiras, instituições e leis próprias.

2. As revoluções liberais de 1830: da França para o mundo

Primeira grande onda contra a ordem de Viena, deflagrada em Paris e propagada à Bélgica (que se torna independente), à Polônia e à Itália. Caráter essencialmente liberal e burguês: buscava constituições e monarquias limitadas, não a democracia.

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As revoluções de 1830 representam a primeira brecha concreta no sistema de equilíbrio desenhado pelo Congresso de Viena, que buscava congelar as fronteiras e restaurar os tronos derrubados por Napoleão. Na França, o estopim foi a publicação das Ordenanças de Julho por Carlos X, que dissolveu a Câmara, restringiu o direito de voto e censurou a imprensa — medidas que violavam a Carta de 1814. A reação popular em Paris, conhecida como Revolução de Julho ou Três Gloriosas, forçou a abdicação do monarca e levou ao trono Luís Filipe de Orléans, o "rei burguês", que governou sob uma constituição moderada. Esse exemplo ilustra o caráter da onda revolucionária: não se tratava de instaurar a república democrática, mas de substituir o absolutismo por uma monarquia constitucional censitária, na qual o poder político permanecia nas mãos da alta burguesia e da nobreza liberal.

O contágio internacional foi imediato: a Bélgica, unida à Holanda pelo Congresso de Viena, conquistou sua independência em 1830 e adotou uma constituição liberal; na Polônia, a insurreição contra o domínio russo foi esmagada; na Itália, os levantes carbonários em Parma, Módena e Bolonha foram reprimidos pela Áustria. Em todos os casos, o padrão se repetiu: a burguesia pressionava por participação política e liberdades civis, mas temia radicalizar o movimento, pois uma revolução popular poderia ameaçar a propriedade privada — daí o caráter elitista e frequentemente conservador dessas revoluções.

A. Restauração Bourbon

O Congresso de Viena devolve o trono francês aos Bourbon. Luís XVIII governa com moderação, outorgando uma Carta Constitucional que preserva parte das conquistas revolucionárias — Código Civil, igualdade jurídica — sob monarquia censitária.

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A Restauração Bourbon na França, iniciada com o retorno de Luís XVIII ao trono após a derrota napoleônica, não significou um retorno puro e simples ao Antigo Regime, mas uma tentativa de conciliar a velha dinastia com as transformações irreversíveis da Revolução Francesa e do período napoleônico. O rei, ciente de que uma restauração pura e simples seria inviável, outorgou a Carta Constitucional de 1814, que criava uma monarquia parlamentar censitária, com um Parlamento bicameral — Câmara dos Pares, nomeada pelo rei, e Câmara dos Deputados, eleita por sufrágio censitário muito restrito —, além de preservar o Código Civil Napoleônico, a igualdade jurídica e as liberdades individuais básicas.

O exemplo concreto mais ilustrativo das tensões desse período é o Terror Branco (1815-1816), onda de violência ultra-realista contra bonapartistas e republicanos após o breve retorno de Napoleão dos Cem Dias, que demonstra como a Restauração tentava equilibrar-se entre a reação monárquica e a impossibilidade de apagar o legado revolucionário. Já no plano político, a ascensão dos ultrarrealistas — liderados pelo Conde de Artois, irmão do rei — e a posterior subida ao trono de Carlos X, em 1824, com políticas cada vez mais reacionárias, como a Lei do Bilhão aos emigrados e a dissolução da Guarda Nacional, acabaram por provocar a Revolução de Julho de 1830, que depôs Carlos X e colocou no trono Luís Filipe de Orléans, marcando o fim da Restauração Bourbon propriamente dita.

B. Carlos X

Sucessor ultrarreacionário, tenta restaurar o Antigo Regime: indeniza os nobres emigrados, amplia o poder do clero e, em 1830, dissolve a Câmara, suspende a liberdade de imprensa e restringe ainda mais o voto pelas Ordenações de Julho. É a fagulha da revolução.

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Carlos X, irmão de Luís XVI e de Luís XVIII, encarna a reação ultramonárquica que se instala na França pós-napoleônica: sua mentalidade é a de que a Revolução de 1789 foi um erro que precisava ser desfeito, e não apenas contido. Por isso, ele não governa como um monarca constitucional, mas como um rei que via na Carta de 1814 uma concessão temporária e revogável. O exemplo concreto mais emblemático é a lei do milhão dos emigrados (1825), que indenizou os nobres que haviam fugido durante a Revolução, devolvendo-lhes parte do patrimônio perdido e, simbolicamente, reabilitando o Antigo Regime; a isso somam-se a Lei do Sacrilégio, que punia com pena de morte a profanação de hóstias, e a entrega do monopólio educacional ao clero, medidas que tentavam reconstruir a aliança entre trono e altar.

Em 1830, diante de uma Câmara refratária, Carlos X baixa as Ordenações de Julho, que dissolvem a Câmara recém-eleita, censuram a imprensa e reduzem o colégio eleitoral à faixa mais rica da nobreza e do clero, excluindo a burguesia que enriquecera desde a Restauração. A resposta é imediata: as Três Gloriosas (27 a 29 de julho) derrubam o rei e levam ao trono Luís Filipe de Orléans, o "rei burguês", marcando a passagem da monarquia reacionária para a monarquia liberal.

C. Revolução de 1830

Três dias de barricadas em Paris derrubam Carlos X. A alta burguesia impede a proclamação da República e entrega o trono a Luís Filipe de Orléans, instaurando a Monarquia de Julho. É a vitória da burguesia financeira, e o povo que lutou fica de fora.

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A Revolução de 1830 é o laboratório perfeito para entender o conceito de revolução liberal-burguesa: um movimento em que a burguesia mobiliza as camadas populares para derrubar o Antigo Regime restaurado, mas freia a radicalização assim que seus interesses estão garantidos, traindo os aliados que foram às barricadas. Na prática, Carlos X tentou restaurar privilégios aristocráticos e governar por decretos, as famosas Ordenanças de Julho, que dissolviam a Câmara, censuravam a imprensa e reduziam o eleitorado, já restrito ao voto censitário. Isso era inaceitável para a burguesia financeira, que queria participar do poder. Os Três Dias Gloriosos (27 a 29 de julho) levaram Paris às barricadas, com operários, artesãos e estudantes como força de choque, muitos guiados por republicanos e pelo velho La Fayette.

A vitória, porém, foi capturada pelos banqueiros e pela alta burguesia, que temiam uma república popular, e entregaram a coroa a Luís Filipe, o "rei burguês", sob a Monarquia de Julho. O exemplo concreto é justamente essa contradição: o povo derrubou um rei para colocar outro, mas o novo regime ampliou o voto censitário e serviu aos interesses do capital financeiro, enquanto sufocava a Revolta dos Cânuts (1831) e novas insurreições republicanas.

Em síntese, 1830 consolida o modelo de revolução pelo alto, que derruba um rei absolutista mas entrega o poder à burguesia, e é essa tensão entre liberdade política e exclusão social que a prova espera que você identifique como o motor das revoluções seguintes.

3. As revoluções de 1848: a Primavera dos Povos

Segunda onda, de alcance continental e conteúdo social, não apenas liberal: pela primeira vez o operariado aparece como sujeito político autônomo, com pautas de trabalho e sufrágio universal. Coincide com a publicação do Manifesto Comunista. Foram derrotadas quase em toda parte.

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As revoluções de 1848, conhecidas como Primavera dos Povos, explodiram a partir de uma conjuntura de crise econômica — más colheitas entre 1845-46 e a fome que atingiu o continente — somada ao descontentamento político contra a ordem restaurada em Viena (1815) e à insatisfação burguesa com o sufrágio restrito. O conceito central é o da revolução em cadeia: em poucas semanas, levantes derrubaram governos em Paris, Berlim, Viena, Milão, Veneza, Budapeste e Bucareste, todos interligados pela mesma conjuntura e pelas novas redes de comunicação. O caso francês é o mais emblemático: em fevereiro, a monarquia de Luís Filipe caiu e proclamou-se a Segunda República, com sufrágio universal masculino; em junho, porém, a mesma República reprimiu com violência a insurreição operária das oficinas nacionais, revelando a cisão entre a burguesia liberal e o proletariado — Marx analisou esse episódio como prova de que a revolução social não seria conduzida pela burguesia.

Enquanto a unificação alemã e italiana avançava por vias conservadoras (Bismarck e Cavour), as revoluções de 1848 foram derrotadas por falta de unidade entre liberais e socialistas, pela ausência de apoio camponês e pela intervenção das potências conservadoras.

A. Luís Filipe I, o "rei burguês"

Governou de 1830 a 1848 favorecendo a alta burguesia financeira, com voto censitário restritíssimo — cerca de 200 mil eleitores. Ao ministro Guizot atribui-se a resposta às demandas de ampliação do voto: "enriqueçam-se". A crise econômica de 1846-47 selou seu destino.

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A Monarquia de Julho, nascida da Revolução de 1830 que derrubou Carlos X e a dinastia Bourbon restaurada, instituiu no trono Luís Filipe de Orléans, o "rei burguês", que simbolizava a aliança entre a coroa e os interesses da alta finança — daí a alcunha de "Rei dos Banqueiros" dada por seus críticos. O regime, sustentado pela Carta de 1830, ampliou ligeiramente as liberdades civis em relação à Restauração, mas manteve o sufrágio censitário: só votava quem pagava determinado imposto anual, o que excluía a pequena burguesia, os operários e todo o campesinato. O exemplo concreto mais emblemático dessa lógica excludente está na campanha dos "banquetes" (1847-48), quando a oposição republicana e liberal organizava jantares políticos para burlar a proibição de reuniões e pressionar por reforma eleitoral; o cancelamento do banquete previsto para 22 de fevereiro de 1848 em Paris detonou os confrontos que forçaram a abdicação de Luís Filipe e a proclamação da Segunda República.

Esse episódio ilustra como a recusa em ampliar o corpo eleitoral — personificada na frase atribuída a Guizot, "enriqueçam-se, e serão eleitores" — transformou uma crise econômica (más colheitas de 1846, alta dos preços dos alimentos, desemprego e falências) em crise política terminal.

B. A Revolução de 1848 na França

Derruba Luís Filipe e proclama a Segunda República, com sufrágio universal masculino e as Oficinas Nacionais de Louis Blanc. O fechamento das Oficinas provoca a insurreição operária de junho de 1848, esmagada — a primeira grande ruptura entre burguesia e proletariado.

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A França de 1848 vivia a "monarquia de julho", regime censitário em que só cerca de 250 mil homens entre 35 milhões de habitantes votavam, e a campanha dos banquetes reformistas foi proibida por Guizot em fevereiro, gerando a queda de Luís Filipe e a proclamação da Segunda República por um governo provisório com Lamartine e Louis Blanc; este, influenciado pelo socialismo associativista, criou as Oficinas Nacionais para garantir trabalho aos desempregados, enquanto o sufrágio universal masculino elevava o eleitorado a cerca de 9 milhões, mas a eleição de abril consagrou uma Assembleia Constituinte de maioria conservadora, temerosa do "perigo vermelho".

O ponto central para entender a ruptura é que o fechamento das Oficinas em junho, sob o argumento de custo e ineficiência, não foi apenas medida econômica, mas política: a burguesia republicana, que usara a classe operária nas barricadas de fevereiro, agora a reprimia para salvar a propriedade privada, e a insurreição parisiense de junho, com milhares de mortos e deportados, foi a maior insurreição urbana do século XIX até então, superada depois apenas pela Comuna de 1871, fato que a banca costuma registrar como marco da primeira grande cisão entre burguesia e proletariado.

C. Repercussão de 1848 no mundo

Ondas revolucionárias na Áustria (queda de Metternich), na Alemanha (Parlamento de Frankfurt), na Itália e na Hungria, com pautas nacionalistas e liberais. Quase todas derrotadas, mas deixaram como saldo o fim da servidão na Europa Central e a força duradoura do nacionalismo.

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A Primavera dos Povos foi a primeira revolução verdadeiramente europeia, e sua repercussão se mede menos pelas vitórias — quase inexistentes — do que pelo terremoto que provocou nas estruturas do Antigo Regime. Na França, a queda de Luís Filipe em fevereiro levou à Segunda República, que aboliu a escravidão nas colônias (Victor Schœlcher), instituiu o sufrágio universal masculino e criou as oficinas nacionais para desempregados; a eleição de Luís Bonaparte em dezembro, porém, mostrou que o sufrágio podia consagrar o próprio autoritarismo, pois em 1852 ele se proclamaria Napoleão III. No Império Habsburgo, a revolta de Viena forçou a fuga de Metternich e a promessa de constituição, enquanto húngaros, tchecos e italianos do Lombardo-Vêneto exigiram autonomia; a contraofensiva austríaca, com ajuda russa, esmagou tudo em 1849, mas o compromisso de 1867 (Ausgleich) criaria a dupla monarquia Áustria-Hungria como resposta tardia ao problema nacional.

A herança mais duradoura foi o casamento entre liberalismo e nacionalismo: as unificações alemã e italiana, nas décadas seguintes, seriam feitas por monarquias conservadoras (Prússia e Piemonte-Sardenha), não por repúblicas democráticas, exatamente porque 1848 ensinou que as massas populares assustavam mais que os reis.

4. Entre a Primavera dos Povos (1848) e a Comuna de Paris (1871)

Período de refluxo revolucionário e avanço conservador na França, com a ascensão de Luís Bonaparte. Termina com a derrota na Guerra Franco-Prussiana e com a Comuna de Paris (1871), primeiro governo operário da história, que durou 72 dias e foi esmagado com milhares de mortos.

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Entre 1848 e 1871, a Europa viveu o refluxo das barricadas e a afirmação de um novo tipo de poder conservador, o bonapartismo: eleito presidente em 1848, Luís Bonaparte dissolve a Segunda República no golpe de 2 de dezembro de 1851 e, no ano seguinte, converte-se em Napoleão III do Segundo Império, combinando sufrágio universal masculino, centralização administrativa e repressão policial, enquanto compra apoio das massas com obras públicas, ferrovias e festas — fórmula que Marx analisou como "cesarismo moderno", em que o Estado aparenta pairar acima das classes para garantir a ordem burguesa.

O exemplo concreto mais emblemático desse arco é a própria Comuna de Paris: nascida em 18 de março de 1871, após a humilhação francesa na Guerra Franco-Prussiana e o cerco prussiano a Paris, ela organizou um governo operário de 72 dias que decretou a separação entre Igreja e Estado, a educação laica e gratuita, o sufrágio universal para ambos os sexos, a eleição direta de funcionários com salários iguais aos dos operários e a autogestão das fábricas abandonadas, antes de ser esmagada na Semana Sangrenta (21 a 28 de maio), com cerca de 20 a 30 mil mortos e milhares de deportados para a Nova Caledônia. Antes disso, a unificação italiana de 1830 a 1871, liderada por Cavour, Garibaldi e Vítor Emanuel II, e a alemã, sob Bismarck após 1862, mostraram como o nacionalismo conservador podia servir à expansão prussiana e piemontesa.

A. Eleições de 1848

Com o sufrágio universal masculino recém-instituído, o voto camponês — majoritário e conservador — elege presidente Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão, pela força do nome. É o paradoxo apontado por Marx: a democracia formal servindo à reação.

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As eleições de 1848 na França, realizadas em dezembro após a queda da monarquia de Julho e a instauração da Segunda República, foram um divisor de águas porque revelaram o abismo entre a retórica revolucionária e a realidade social do país. O sufrágio universal masculino, conquistado pelos operários nas barricadas de fevereiro, ampliou o eleitorado de cerca de 250 mil para mais de 9 milhões de votantes, mas a maioria esmagadora desse novo corpo eleitoral era composta por camponeses proprietários de pequenas terras, temerosos de que a agitação urbana e as propostas socialistas ameaçassem sua recém-adquirida propriedade — herança da Revolução de 1789 e do fim dos direitos feudais.

Esse medo foi habilmente explorado pelos adversários republicanos, que pintaram os insurgentes de junho de 1848 como "partidários da partilha de terras" e "inimigos da família". O resultado foi a vitória avassaladora de Luís Bonaparte, com cerca de 74% dos votos, contra o general Cavaignac, que representava a república burguesa e a repressão aos operários. O exemplo concreto é a própria campanha: enquanto os republicanos socialistas, como Ledru-Rollin, obtinham apenas 5% dos votos, Bonaparte construiu uma imagem de defensor da ordem, da religião e da propriedade, usando o prestígio do tio e promessas vagas de prosperidade.

B. "O 18 Brumário de Luís Bonaparte"

Obra de Marx (1852) sobre o golpe de Estado de 1851. Dela vem a frase de que a história se repete "a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Analisa como o Estado pode ganhar autonomia relativa quando as classes se equilibram — o bonapartismo.

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O bonapartismo é o conceito que Marx forja n'O 18 Brumário para explicar como Luís Bonaparte, um aventureiro sem prestígio próprio, pôde dissolver a Assembleia Nacional, prender opositores e coroar-se imperador em dezembro de 1852: com a burguesia temendo o proletariado após as jornadas de junho de 1848 e o proletariado já derrotado e desarmado, nenhuma classe conseguia exercer sozinha a dominação política, e o Executivo — apoiado no Exército, na burocracia e no campesinato parcelar, massa dispersa que via no imperador um protetor — pôde pairar acima das classes como árbitro aparente; não se trata de um Estado neutro, pois ele garante a ordem social burguesa (propriedade, crédito, ferrovias, a Tratado de Comércio de 1860 com a Inglaterra, que abriu o mercado francês) sem que a burguesia precise governar diretamente, o que Marx resume na fórmula de que o Estado parece "suspenso no ar".

O exemplo concreto costuma ser comparado ao cesarismo, categoria tomada de Roma: assim como Júlio César se apoiou no Exército e nas camadas populares para esmagar a República oligárquica, Napoleão III usou o mesmo expediente, e é justamente essa analogia que as provas exploram — a Fuvest já cobrou a relação entre bonapartismo e o papel do Executivo forte na Europa do século XIX, a Unicamp costuma pedir interpretação de trechos da obra, e o Enem aborda o tema pela via da cidadania e da crítica aos regimes autoritários, enquanto vestibulares como a UERJ e a UFMG associam o conceito à análise das ditaduras latino-americanas do século XX, tratadas por autores como Florestan Fernandes como formas de bonapartismo tardio; a chave da questão é perceber que o bonapartismo não é uma exceção francesa, mas um modelo de dominação em que o capital, para sobreviver à ameaça popular, aceita ceder o poder político a um ditador que o preserva — o que explica por que as revoluções de 1848 terminaram, quase todas, em regimes conservadores ou autoritários.

C. Segundo Império Francês (1852-1870)

Luís Bonaparte proclama-se Napoleão III. Governo autoritário com forte crescimento econômico, expansão ferroviária, bancos de investimento e a reforma urbana de Haussmann em Paris — cujos bulevares dificultavam barricadas. Cai após a derrota para a Prússia em Sedan (1870).

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O Segundo Império Francês (1852–1870) é o modelo clássico do bonapartismo: um regime que combina autoridade estatal forte com sufrágio universal masculino, plebiscitos e apelo direto às massas, equilibrando-se entre as classes ao impedir tanto a hegemonia burguesa parlamentar quanto a revolução operária. Napoleão III controlava a imprensa, a educação e as eleições, mas legitimava-se por consultas populares e pelo dinamismo econômico — industrialização acelerada, crédito bancário, ferrovias e a transformação de Paris por Haussmann, cujos amplos bulevares serviam tanto à circulação do capital quanto ao deslocamento rápido das tropas contra barricadas, expulsando os pobres para as periferias.

Na política externa, envolveu-se na Guerra da Crimeia, na intervenção no México e na unificação italiana, mas o cálculo central era conter a Prússia: ao declarar guerra em 1870, foi cercado e capturado em Sedan, e a humilhação precipitou a queda do império e a eclosão da Comuna de Paris em 1871.

5. Unificações italiana e alemã

Ambas se completam em 1870-1871, tardiamente em relação a França e Inglaterra. Reconfiguram o equilíbrio europeu: o surgimento de uma Alemanha industrial e militarmente poderosa no centro do continente é uma das causas de fundo da Primeira Guerra Mundial.

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As unificações italiana e alemã são processos de construção nacional típicos do século XIX, quando o nacionalismo se alia à industrialização e à realpolitik para refundir o mapa da Europa. Diferem das revoluções liberais de 1830 e 1848 porque não partiram de levantes populares amplos, mas de acordos entre elites e Estados fortes: no caso italiano, o Reino do Piemonte-Sardenha, sob a casa de Savoia, com o primeiro-ministro Cavour costurando alianças diplomáticas (inclusive com Napoleão III na guerra contra a Áustria em 1859) e Garibaldi liderando a Expedição dos Mil, que tomou a Sicília e Nápoles em 1860, entregando o sul ao rei Vítor Emanuel II; Roma só é incorporada em 1870, completando a unificação.

Na Alemanha, Bismarck conduz a unificação pela via prussiana, com a política de ferro e sangue: vitória sobre a Dinamarca (1864), derrota da Áustria em Sadowa (1866), que exclui Viena da futura Alemanha, e vitória sobre a França em Sedan (1870), que permite proclamar o Império Alemão em Versalhes, em janeiro de 1871, com Guilherme I coroado kaiser. O exemplo concreto é a própria anexação da Alsácia-Lorena após Sedan, que alimenta o revanchismo francês e se torna uma das causas da Primeira Guerra.

A. Características comuns

Em ambos os casos: fragmentação política herdada do feudalismo, um Estado-guia mais forte à frente (Prússia e Piemonte-Sardenha), um estadista hábil, apoio da burguesia interessada em mercado unificado, e o uso da guerra como instrumento — não da revolução popular.

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As unificações italiana e alemã foram processos de construção de Estados nacionais que combinaram diplomacia, guerra e arranjos políticos entre elites, afastando-se do modelo de revolução popular francesa. Na Alemanha, a figura central é Otto von Bismarck, chanceler prussiano que, entre 1864 e 1871, usou a Realpolitik — política baseada no cálculo de poder, sem espaço para idealismos — para isolar a Áustria, derrotar a Dinamarca e a França e, por fim, proclamar o Império Alemão em Versalhes, coroando Guilherme I. Na Itália, o Piemonte-Sardenha de Cavour liderou o processo com apoio francês contra a Áustria, enquanto Garibaldi e seus Camisas Vermelhas conquistavam o sul e o entregavam a Vítor Emanuel II, num equilíbrio entre iniciativa popular e controle monárquico.

B. Alemanha

Sob a Prússia de Guilherme I e Bismarck, com sua política de "sangue e ferro". Base econômica no Zollverein, a união aduaneira. Três guerras — contra Dinamarca, Áustria e França — culminam na proclamação do II Reich em Versalhes (1871), com a anexação da Alsácia-Lorena.

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O ponto de partida da unificação alemã é a Confederação Germânica (1815), criada no Congresso de Viena: um mosaico de 39 Estados soberanos, com a Prússia e a Áustria disputando a hegemonia e a pequena burguesia liberal tentando, sem sucesso, impor um projeto nacional na Revolução de 1848 — daí a famosa fórmula de que a unificação veio "pelo ferro, não pelo voto". A Prússia reunia as condições para liderar esse processo: economia industrial crescente, exército modernizado e a Zollverein, união aduaneira que, desde 1834, integrava comercialmente os Estados alemães e os afastava da órbita austríaca. Com Guilherme I no trono e Bismarck como chanceler, a estratégia foi isolar diplomaticamente o adversário antes de cada conflito, garantindo a neutralidade das grandes potências.

O exemplo concreto dessa sequência está na ordem das guerras: primeiro a Guerra dos Ducados (1864), contra a Dinamarca, que rendeu a Prússia e a Áustria a administração de Schleswig e Holstein; depois a Guerra das Sete Semanas (1866), contra a Áustria, que expulsou Viena da política alemã e permitiu a criação da Confederação da Alemanha do Norte; por fim a Guerra Franco-Prussiana (1870-71), cuja vitória permitiu anexar a Alsácia-Lorena e proclamar o II Reich em Versalhes.

C. Itália (Il Risorgimento)

Conduzida pelo Piemonte-Sardenha de Vítor Emanuel II e Cavour, com apoio francês contra a Áustria, somada à ação popular dos camisas vermelhas de Garibaldi no sul. Roma é incorporada em 1870, o que gera o conflito com o papado, só resolvido em 1929.

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O Risorgimento ("renascimento") foi o processo de construção da nação italiana contra a fragmentação política e a dominação estrangeira: após 1815, a península era um mosaico de reinos restaurados, com o Lombardo-Vêneto sob controle austríaco e o centro-norte sob influência dos Habsburgo. Três projetos disputaram esse caminho — o republicano unitário de Giuseppe Mazzini, fundador da Jovem Itália, que sonhava com uma república democrática e insurrecional; o federalista de Cattaneo; e o monárquico do Piemonte-Sardenha, que acabou vitorioso por dispor de exército, constituição liberal (o Estatuto Albertino de 1848) e diplomacia hábil.

As guerras de independência revelaram a fraqueza dos revolucionários isolados, como nas derrotas de 1848-49, e a Segunda Guerra de Independência (1859) mostrou a receita vencedora: aliança de Cavour com Napoleão III em Plombières, vitórias de Magenta e Solferino, e a anexação da Lombardia. O exemplo concreto decisivo é a Expedição dos Mil (1860): Garibaldi e seus camisas vermelhas desembarcaram na Sicília, derrubaram o Reino das Duas Sicílias e entregaram o sul conquistado a Vítor Emanuel II, evitando a guerra civil entre monarquistas e republicanos. A unificação só se completou com a anexação de Veneza em 1866 e a tomada de Roma em 1870, quando a capital foi transferida e o papa se declarou "prisioneiro" no Vaticano — a Questão Romana, resolvida apenas pelo Tratado de Latrão (1929) com Mussolini.