1. O que foi a Guerra Fria?
Disputa bipolar entre EUA e URSS (1947-1991) sem confronto militar direto, por causa do equilíbrio nuclear e da destruição mútua assegurada. Manifestou-se em guerras periféricas, corrida armamentista e espacial, espionagem, propaganda e disputa ideológica em todos os continentes.
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Mais do que uma simples rivalidade entre potências, a Guerra Fria foi uma ordem mundial específica, um sistema de relações internacionais que organizou a política global por quase meio século e cuja lógica precisa ser compreendida para além da oposição entre capitalismos e socialismos. O conceito-chave aqui é o de bipolaridade assimétrica: se, de um lado, havia dois polos de poder militar e ideológico capaz de se destruírem mutuamente, de outro, os EUA e a URSS nunca foram equivalentes em termos econômicos — enquanto o bloco soviético se organizava pelo Comecon (1949) e por economias planificadas sob controle estatal, o bloco ocidental se estruturava em torno do Plano Marshall (1947) e do GATT, o que fez alguns historiadores preferirem falar de uma "guerra fria" menos simétrica que os manuais escolares sugerem.
A origem do termo ajuda a entender seu significado: foi popularizado pelo jornalista Walter Lippmann em 1947, a partir da obra do escritor George Orwell, que em 1945 já falava de uma "paz que não é paz" — uma condição de hostilidade permanente sem declaração formal de guerra, na qual a violência é deslocada para a periferia do sistema e para os campos não militares da vida social. Foi exatamente isso o que se viu na crise dos mísseis de Cuba (1962), o exemplo mais didático do funcionamento dessa ordem: quando a URSS instalou mísseis nucleares na ilha caribenha em resposta à instalação de mísseis americanos na Turquia, o mundo chegou à beira do confronto direto, mas a solução veio por negociação secreta, retirada recíproca dos artefatos e criação do telefone vermelho entre Washington e Moscou — ou seja, o próprio sistema produziu mecanismos para impedir a guerra total, ao mesmo tempo em que mantinha a corrida armamentista e a disputa por áreas de influência.
Vale notar que a Guerra Fria não foi apenas um fenômeno diplomático-militar: ela atravessou a cultura, a ciência (a corrida espacial e a formação de agências como a NASA e o programa soviético), o esporte (as Olimpíadas como vitrine ideológica), o cinema e a propaganda, além de ter redefinido a política interna de ambos os blocos, com o macarthismo nos EUA e o controle do Partido Comunista no Leste Europeu.