F2 · Aula 59

A Revolução Chinesa e as origens da China contemporânea

1. Antecedentes da revolução

Século XIX de humilhações: Guerras do Ópio, tratados desiguais e concessões territoriais. A Revolta dos Boxers (1900) é esmagada; a revolução de 1911, com Sun Yat-sen, derruba o império e proclama a República. Segue-se a fragmentação entre senhores da guerra e a invasão japonesa, que aproxima temporariamente comunistas e nacionalistas.

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O fio condutor dos antecedentes está na combinação entre agressão externa e colapso interno: a partir de 1839, as Guerras do Ópio forçaram a abertura de portos e a entrega de Hong Kong à Inglaterra pelo Tratado de Nanquim (1842), inaugurando a era dos tratados desiguais que erosionaram a soberania Qing e alimentaram revoltas internas, como a dos Taiping (1850-1864), que chegou a controlar boa parte do sul do país. A derrota para o Japão em 1895 e a partilha da China em "esferas de influência" expuseram a incapacidade da dinastia, enquanto a Revolta dos Boxers (1900), movimento antiocidental apoiado pela corte, terminou esmagada pela Aliança das Oito Nações e impôs pesada indenização.

Nesse vácuo, surgem os nacionalistas de Sun Yat-sen, cujo programa dos Três Princípios do Povo combinava independência nacional, governo republicano e bem-estar social, e cuja articulação levou à Revolução de 1911, que derrubou o império milenar e proclamou a República da China. O exemplo concreto mais ilustrativo dessa sequência é justamente o Movimento de 4 de Maio de 1919, quando estudantes protestaram contra a decisão da Conferência de Versalhes de transferir ao Japão os antigos direitos alemães em Shandong, apesar de a China ter participado da guerra ao lado dos vencedores: o episódio mostrou que a república recém-nascida continuava refém das potências e radicalizou a juventude urbana, abrindo caminho para a fundação do Partido Comunista Chinês em 1921 e para a posterior aliança com os nacionalistas contra os senhores da guerra.

2. A revolução

Guerra civil entre o Kuomintang de Chiang Kai-shek e os comunistas de Mao Tsé-Tung, marcada pela Longa Marcha (1934-1935). A originalidade de Mao foi basear a revolução no campesinato, e não no operariado urbano. Em 1949, proclama-se a República Popular da China; os nacionalistas refugiam-se em Taiwan.

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Aprofundando o tópico, a revolução chinesa se insere no contexto da crise do regime imperial, derrubado em 1911, e da fragmentação do país entre senhores da guerra, o que abriu espaço para a fundação do Partido Comunista Chinês (PCC) em 1921 e para a primeira frente unida com o Kuomintang, rompida no massacre de Xangai de 1927, quando Chiang Kai-shek volta-se contra os comunistas. A ruptura expôs a tese maoísta de que, num país de maioria camponesa e sem proletariado urbano numeroso, a revolução deveria apoiar-se no campo, cercando as cidades a partir das bases rurais — síntese original que contrariava a ortodoxia soviética de insurreição operária.

Após a Longa Marcha, Mao consolida o PCC em Yan'an, combinando reforma agrária, guerrilha e unidade nacional contra a invasão japonesa (1937-1945), o que lhe garante apoio popular e vitórias militares na guerra civil retomada em 1946, culminando na proclamação da República Popular em 1º de outubro de 1949 e no refúgio nacionalista em Taiwan. Como exemplo concreto dessa lógica revolucionária, a reforma agrária de 1947-1952 confiscou terras de latifundiários e as distribuiu a camponeses, transformando a base social do PCC e garantindo recrutamento e legitimidade para o novo regime, ao mesmo tempo em que revela o caráter agrário e popular da revolução chinesa.

3. O fim da revolução

O Grande Salto para a Frente (1958) fracassa, com fome de dezenas de milhões; a Revolução Cultural (1966-1976) persegue intelectuais com a Guarda Vermelha. Após a morte de Mao, Deng Xiaoping abre a economia, criando zonas econômicas especiais e o capitalismo de Estado sob partido único — com a repressão da Tiananmen em 1989.

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O fim da revolução chinesa não é um evento datado, mas um processo de acomodação do socialismo a uma realidade que o próprio maoísmo ajudou a criar: depois de 1978, a China abandona a luta de classes como motor da história e passa a tratar o desenvolvimento econômico como prioridade nacional, sem tocar no monopólio do Partido Comunista — fórmula que o próprio Deng resumiu na ideia de "socialismo com características chinesas". O exemplo mais concreto são as Zonas Econômicas Especiais, criadas a partir de 1980, com destaque para Shenzhen, que em uma geração passou de vila pesqueira a polo industrial e financeiro: ali se combinam investimento estrangeiro, mão de obra barata e gestão estatal do território, uma síntese possível somente porque o Estado controla o solo urbano e direciona crédito e infraestrutura.

Em vez de eliminar a burguesia, o Estado chinês passou a conviver com ela sob vigilância, permitindo lucros privados desde que não contestassem a autoridade partidária — lógica que explica também o desfecho de Tiananmen em 1989, quando a abertura econômica não veio acompanhada de abertura política. Na prática, é um capitalismo de Estado sob partido único: mercado sem pluralismo partidário, e é justamente esse descompasso entre liberalização econômica e autoritarismo político que sustenta a força da China como potência mundial hoje.