F1 · Aulas 47–48

O populismo: conceito e casos na Argentina e no México

1. Contexto e conceito

Fenômeno latino-americano das décadas de 1930 a 1960, ligado à urbanização e à industrialização: líder carismático em relação direta com as massas, sem mediação partidária; nacionalismo, conciliação de classes e concessão de direitos pelo alto. O termo é hoje contestado por historiadores, que apontam o protagonismo real dos trabalhadores.

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O conceito de populismo nasce da leitura de que, entre os anos 1930 e 1960, a crise do modelo agroexportador e a industrialização por substituição de importações empurraram enormes contingentes rurais para as cidades, formando massas urbanas ainda sem representação partidária consolidada; nesse vazio, líderes como Getúlio Vargas no Brasil, Juan Perón na Argentina e Lázaro Cárdenas no México construíram uma relação direta com os trabalhadores, em que o Estado se apresentava como árbitro acima das classes, concedendo direitos (CLT, salário mínimo, sindicatos tutelados, reforma agrária cardenista) e ao mesmo tempo controlando o movimento operário, enquanto o discurso nacionalista e anti-imperialista dava coesão simbólica a esse arranjo.

O caso argentino é o mais emblemático: Perón, entre 1946 e 1955, combinou os descamisados urbanos, os sindicatos da CGT, o culto à figura de Eva Perón e uma política de justiça social e industrialização que, contudo, esmagava a oposição e mantinha os trabalhadores atrelados ao Estado; no México, Cárdenas (1934-1940) nacionalizou o petróleo em 1938 e distribuiu terras aos camponeses, integrando-os ao projeto revolucionário institucional. A crítica historiográfica atual, porém, contesta o próprio termo: autores como Daniel James e Angela de Castro Gomes mostram que não havia passividade das massas, mas negociação constante, em que operários e camponeses pressionavam, resistiam e usavam os canais estatais em benefício próprio, de modo que o "populismo" seria menos uma manipulação de cima para baixo e mais uma via de mão dupla.

2. O populismo na Argentina

Juan Domingo Perón (1946-1955) apoia-se nos descamisados e nos sindicatos, com forte presença de Eva Perón. Nacionaliza ferrovias e o Banco Central, amplia direitos trabalhistas e concede o voto feminino. Deposto por golpe militar em 1955, o peronismo segue estruturando a política argentina até hoje.

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O conceito de populismo, longe de ser um simples rótulo, designa um fenômeno político em que um líder carismático se apresenta como representante direto do "povo" contra uma elite ou oligarquia, mobilizando as massas urbanas por meio de uma retórica emocional e de concessões concretas. Na Argentina, esse modelo ganha forma acabada com Perón, que entre 1946 e 1955 construiu uma base de apoio que unia sindicatos, militares nacionalistas e setores populares recém-urbanizados, os descamisados. O exemplo concreto mais ilustrativo é o Instituto Argentino de Promoción del Intercambio (IAPI), criado em 1946: o Estado assumia o monopólio da comercialização de produtos agrícolas de exportação, comprando dos produtores rurais a preços fixos e vendendo no mercado externo a preços mais altos, transferindo assim divisas do campo para financiar a industrialização e os benefícios urbanos — uma política que evidencia tanto o viés redistributivo quanto o caráter corporativo do regime.

As provas costumam cobrar o tema de duas maneiras: na primeira, pedem a comparação entre Perón e outros populistas latino-americanos, como Getúlio Vargas e Lázaro Cárdenas, destacando semelhanças (nacionalizações, legislação trabalhista, apelo às massas) e diferenças (o grau de institucionalização sindical, o papel das esposas, a relação com o Exército); na segunda, exigem a interpretação de charges e discursos do próprio Perón ou de Eva, cobrando a identificação dos elementos típicos do discurso populista — o "nós contra eles", a exaltação do trabalho, a promessa de justiça social. É comum também que a Fuvest e a Unicamp peçam a relação entre o peronismo e a instabilidade política argentina posterior, já que o movimento, proibido entre 1955 e 1973, retorna com força e continua dividindo o país, o que transforma Perón em figura central para entender não apenas seu governo, mas todo o século XX argentino.

Esse vínculo entre líder, massa e Estado, portanto, é o núcleo que o vestibulando deve dominar, sem esquecer que o populismo não é sinônimo de ditadura nem de democracia plena, mas de um arranjo híbrido que combina participação popular e concentração de poder.

3. O populismo no México

Lázaro Cárdenas (1934-1940) retoma o programa da Revolução Mexicana: ampla reforma agrária com os ejidos, apoio aos sindicatos, educação pública e, sobretudo, a nacionalização do petróleo em 1938, com a criação da Pemex. Institucionaliza o partido que se tornaria o PRI, no poder por sete décadas.

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No México, o populismo se distingue do argentino por nascer diretamente da institucionalização de uma revolução vitoriosa, e não da mediação carismática sobre massas urbanas recém-chegadas: enquanto Perón falava em nome dos descamisados contra a velha oligarquia, Cárdenas convertia em política de Estado as bandeiras zapatistas e villistas, transformando camponeses e operários em base social de um partido oficial que canalizava o conflito em vez de reprimi-lo. O conceito-chave aqui é o de populismo de Estado: o líder não apenas mobiliza as massas, mas as incorpora a estruturas corporativas — a Confederação Nacional Camponesa (CNC) e a Confederação dos Trabalhadores Mexicanos (CTM) — que garantem lealdade em troca de direitos e benefícios, ao mesmo tempo que desativam a autonomia política desses grupos.

O exemplo mais concreto dessa lógica é a expropriação das companhias petrolíferas estrangeiras em 1938: após um conflito trabalhista entre sindicatos e empresas como a Standard Oil e a Royal Dutch Shell, Cárdenas decretou a nacionalização com base no artigo 27 da Constituição de 1917, criou a Pemex, indenizou as empresas e transformou um litígio sindical em símbolo máximo da soberania nacional — gesto que lhe valeu apoio popular massivo e isolamento diplomático, mas consolidou o Estado como árbitro e beneficiário do petróleo.